A quantas anda a paz no Oriente Médio

Por Diogo Bercito
Imagem do atirador de Bruxelas. Crédito Reuters.
Imagem do atirador de Bruxelas. Crédito Reuters

Peço perdão aos leitores pelos dias de ausência. Estive fora de Jerusalém, trabalhando em um material que em breve publicarei na Folha. Por ora, não vou entrar em detalhes. Mas decidi escrever aqui, no meu retorno, sobre as notícias que perdi enquanto estive fora –não porque eu pense que o papel deste Orientalíssimo blog seja o de noticiar todos os acontecimentos cotidianos, e sim pelo seu inverso, ou seja, por estar convicto de que temos de organizar os fatos em uma narrativa coerente. A ideia que me vem à mente é a de “O Fio e os Rastros”, obra do historiador italiano Carlo Ginzburg acompanhada do subtítulo “verdadeiro, falso, fictício”.

Pois bem. Tratemos aqui do fracasso das negociações de paz, da tentativa frustrada de um homem-bomba em Israel, da prisão de um suspeito no tiroteio de Bruxelas e da formação de um governo de unidade nos territórios palestinos. Com diversas conclusões possíveis, incluindo a de que o conflito árabe-israelense, em vez de se resolver, complicou-se ainda mais devido à recente tentativa de negociação.

Afinal, em abril se encerrou o prazo estabelecido anteriormente para o diálogo entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina. Ainda que restem algumas poucas portas abertas para a solução do conflito, em geral a atmosfera aqui é de uma grave perda das condições de negociação. Palestinos reclamam a soltura de prisioneiros, conforme havia sido estabelecido; israelenses criticam a união entre as facções palestinas Fatah e Hamas.

Por incrível que pareça àqueles que ainda torcem pela paz, ambos os lados estão tomando medidas para afastar-se das condições exigidas pela contraparte. Assim, o gabinete israelense vota para dificultar o perdão a terroristas, necessário para a libertação de prisioneiros (leia aqui). Por sua vez, a Autoridade Nacional Palestina deve formar amanhã um governo de unidade entre as facções rivais Fatah e Hamas, a despeito das ameaças israelenses de cortar relações –o Hamas é considerado uma organização terrorista, em Israel (leia aqui). Como me disse um colega hoje, durante um café, a impressão que se tem é de que tanto Israel quanto palestinos se esforçam em superar um ao outro, em termos negativos.

O sentimento aqui é, é claro, de frustração. Em especial no lado palestino, que vive no prato mais afetado pelo desequilíbrio, em um governo ineficaz, cercado por todos os lados, incapaz de recolher os próprios impostos para pagar suas contas. É cedo para chegar a conclusões e ligar os fios aos seus rastros, mas será nesse contexto que vai ser lida durante a semana a notícia de ontem de que Israel apreendeu um palestino prestes a cometer um ataque suicida (leia aqui, porque a notícia passou praticamente despercebida).

Também será importante para o debate o desenrolar das investigações a respeito do tiroteio em Bruxelas (leia aqui), em que dois israelenses foram mortos. O antissemitismo, conforme vem insistindo o governo israelense, ainda está vivo, e de fato a segurança do Estado israelense e de seus cidadãos, ao redor do mundo, será hoje e no futuro uma preocupação deste e dos próximos governos.

É mais fácil discutir a paz no Oriente Médio em termos conceituais, ou pela moralidade de quem está “certo” e quem está “errado”. Apoiadores de ambos os lados trabalham com empenho em escrever as suas versões, em decidir o que é “verdadeiro, falso, fictício”. Mas, a bem da verdade, fará mais sentido aos pragmáticos entender essa questão a partir do contexto para decidir por que, aparentemente, a paz continua distante desta região.