Um guia de Jerusalém para os aventureiros

Por Diogo Bercito
Um gato de rua na Nova Igreja de Jerusalém, em ruínas. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Um gato de rua no que parece ser a Igrea Nea de Justiniano, em Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Estive em Jerusalém pela primeira vez em 2008. À época, eu escrevia um livro sobre a cidade como tese para a universidade. Como o rio Nilo, tentei devorar as margens dos livros de história e dos guias arqueológicos. Cinco anos depois, voltei à cidade sagrada para uma temporada de trabalho, escrevendo para esta Folha como correspondente internacional. Tentei conhecer, neste tempo, cada vez mais das ruas jerosolimitas.

Me parece que falhei.

Comprei, há algumas semanas, um novo guia de Jerusalém. É um livrinho curto chamado “Jerusalem: The Old City”, publicado pela editora Erez. Me havia chamado a atenção a quantidade de detalhes nas suas 150 páginas — folheando o livro, me deparei com becos ainda desconhecidos, na cidade. Quis prová-los.

Passei a manhã deste sábado (24)  na cidade antiga de Jerusalém. Em seguida, voltei para casa com aquela mesma felicidade de 2008, de quem descobriu uma cidade pela primeira vez. Com um mapa em mãos, me perdi repetidamente na cidade que chamo de casa, e aprendi aqui a lição de modéstia da história.

Estive, afinal, dezenas de vezes na região do Portão de Jaffa. Mas só hoje soube que os túmulos à esquerda da entrada, em uma elevação, são os sepulcros anônimos que a tradição acredita pertencerem aos arquitetos das muralhas de Solimão, o Magnífico –que, no século 16, reconstruiu os muros de Jerusalém. Ao que parece, o sultão se enervou ao descobrir que os arquitetos haviam deixado o Túmulo do Rei Davi do lado de fora da cidade, pelo que os matou. Mas, diante da eficiente obra de engenharia, até hoje de pé, ele teria se arrependido e os mandado enterrar na cidade.

Um pouco adiante, em um beco sem saída, aprendi que um pilar escondido entre as cadeiras de um restaurante é uma importante relíquia arquelógica. Me aproximando da coluna, pude ler a inscrição em latim, que diz “Para Marcus Iunio Maximus, legado imperial da décima legião Fretensis… de Caius Domitius Sergrianus e Iulius Honoratus his adjutants”. A legião Fretensis, “de ferro”, esteve em Jerusalém durante a destruição da cidade, em 70 d.C, e o pilar oferece um presente desconhecido. Hoje, está esquecido.

A caminhada me levou, em seguida, ao bairro maronita (seita cristã tradicional no Líbano), cujas ruelas eu até então ignorava. Encontrei, ali, uma antiga igreja siríaca (seita cristã oriental) — um monge abriu as portas, fora do horário de visitas, e me mostrou o ícone ortodoxo que, diz a lenda, foi pintado por São Lucas representando Jesus e Maria. “Você está visitando Jerusalém?”, ele me perguntou. “Não. Eu moro aqui, mas nunca vi esta igreja”, respondi. Ele suspirou, como quem diz “É”.

A manhã foi repleta de surpresas como essas. Os leitores mais atentos talvez já as conheçam. Eu confesso minha ignorância. Assim, me permito dizer que também nunca havia visto a Igreja de Santa Maria dos Cavaleiros Alemães, nos arredores do Muro das Lamentações. O templo, construído por cruzados no século 12, está hoje abandonado e fechado a visitações. Eu tive de espiá-lo por uma grade.

Mas talvez a melhor das descobertas dessa manhã de aventuras tenha sido o que parece ser a Nova Igreja de Santa Maria, Mãe de Deus, apelidada “Nea”. Eu já havia lido sobre essa igreja, que chegou a ser a maior de toda a cidade. Mas pensava, até hoje, que as ruínas estivessem perdidas. Aparentemente, não todas elas — o livro me levou a um canto onde estão supostamente alguns de seus restos, o que só vou poder confirmar nas próximas semanas, procurando um arqueólogo local.

Eu já tinha visto esses escombros em dezenas de vezes, a caminho do Muro. Um apanhado de pedras perto de um campinho de futebol, em uma parte rebaixada do terreno. Nunca me dei ao trabalho de descer as escadas e explorar as ruínas.

A bem da verdade, a placa impede as visitas, por risco de desmoronamento. Mas uma fresta na cerca e a curiosidade me levaram a entrar nas primeiras salas das suas ruínas — onde encontrei um assustado gatinho de rua. Construída por Justiniano, no século 6, a Igreja Nea deveria ser um dos ícones de Jerusalém. Por outro lado, também parece bem pensado que esteja ali, largada às sombras. Seus muros, arcos e cavernas, tomados por escombros, serão para mim o símbolo da uma nova Jerusalém que eu desconhecia.

Os escombros da Igreja Nea, em  Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
O que parecem ser os escombros da Igreja Nea, em Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Igreja Siríaca em Jerusalém, com ícone pintado por São Lucas. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Igreja Siríaca em Jerusalém, com ícone pintado por São Lucas. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Pilar romano em homenagem à Legião de Ferro. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Pilar romano em homenagem à Legião de Ferro. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Igreja de Santa Maria dos Cavaleiros Alemães. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Igreja de Santa Maria dos Cavaleiros Alemães. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Túmulo de um dos engenheiros das muralhas de Solimão. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Túmulo de um dos engenheiros das muralhas de Solimão. Crédito Diogo Bercito/Folhapress