Liderança palestina responde ao Orientalíssimo

Por Diogo Bercito
Claire Anastas segura artesanato que vende diante do muro, em Belém. Crédito Muhesen Amren/Folhapress
Claire Anastas segura artesanato que vende diante do muro, em Belém. Crédito Muhesen Amren/Folhapress

Algumas das histórias que nós jornalistas contamos vivem pouco. São lidas, talvez comentadas, e então esquecidas. Outras persistem por dias, semanas, meses, como um pequeno ponto que, desenrolado, se torna um complicado fio para uma longa discussão. Fatos se encadeiam, opiniões se chocam e o debate segue adiante. Parece ser o caso da narrativa que publiquei no Natal sobre a barreira que separa Israel da Cisjordânia (clique aqui para ler).

À época, fui criticado (e ofendido) por não ter deixado explícito o argumento israelense de que o muro tem por objetivo garantir a segurança regional. Convicto de que o jornal tem de ser um espaço plural, que é aliás um dos pilares do jornalismo da Folha, convidei Roni Kaplan, porta-voz do Exército israelense, para escrever no Orientalíssimo a respeito da barreira de separação. O texto está aqui.

Recentemente, recebi uma crítica vinda de outra direção –a Organização para a Libertação da Palestina me escreveu pedindo também o direito de escrever, aqui, sobre sua posição a respeito do muro. Dessa maneira, vocês encontram abaixo o relato de Xavier Abu Eid, encarregado das comunicações da equipe de negociação palestina para a paz.

O texto é assinado por ele e não necessariamente corresponde às opiniões deste espaço, assim como este blog não se responsabiliza pelas informações ali contidas. Os negritos são meus, a título de guia de estilo. Mais uma vez, não publicarei aqui comentários ofensivos ao porta-voz palestino ou a mim.

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A ocupação israelense da Palestina não difere de outras campanhas coloniais. Tomar a terra e seus recursos naturais é um repertório conhecido para muitos. A “segurança” foi historicamente a palavra escolhida por Israel para justificar-se. Essa palavra é usada para justificar qualquer violação aos direitos internacionais do povo palestino. Ela é apoiada pela cultura de impunidade garantida pela comunidade internacional.

Um dos casos mais importantes de impunidade é a construção por parte de Israel de um muro de anexação no território internacionalmente reconhecido como palestino. O fato de que 82% do muro (que tem uma extensão total de 711 quilômetros) está construído em território ocupado fala por si.

Esse muro divide palestinos de palestinos mais do que palestinos de israelenses. Divide palestinos de suas escolas, hospitais, lugares de trabalho e lugares de culto. Tudo isso está documentado em relatórios das Nações Unidas, da União Europeia e do Departamento de Estado americano, entre outros, incluindo organizações de direitos humanos israelenses como Btselem ou palestinas como Al Haq.

Em 2004, a Corte Internacional de Justiça declarou o muro israelense como ilegal, ordenando que Israel, a potência ocupadora, o desfaça ou compense a população afetada. A Corte não questionou o direito de Israel de construir um muro, mas o fato de construí-lo em um território ocupado. É por isso que chamo a comunidade internacional a não colaborar com Israel em sua construção ou nos efeitos que esse muro busca, que são simplesmente facilitar a anexação de praticamente 10% da Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental.

O muro de anexação israelense é uma parte integral da empreitada colonizadora israelense. Tal como as colônias, as rodovias exclusivas para colonos e os postos de controle, o muro busca forçar uma mudança do status quo de um país internacionalmente reconhecido como ocupado. Isso não é apenas ilegal de acordo com o direito internacional, mas também é considerado um crime de guerra segundo o Estatuto de Roma.

A colonização foi criminalizada pela comunidade internacional como uma das lições após a Segunda Guerra Mundial, uma coisa expressamente proibida pela Quarta Convenção de Genebra, mas que Israel realiza de maneira sistemática há décadas.

A cultura de impunidade garantida a Israel permitiu que construa um muro que tenta nos asfixiar na Palestina ocupada. É a atitude complacente daqueles que olham sem fazer mais, ou que entretêm os argumentos de “segurança” de Israel. Essa mesma impunidade é a que está causando o colapso dos esforços para chegar a um acordo entre Israel e Palestina: só nos últimos oito meses de negociações, Israel avançou na construção de mais de 10.509 unidades habitacionais nas colônias, muitas delas na zona onde o muro facilita sua expansão.

Até este momento, o compromisso histórico palestino de reconhecer Israel em 78% do território da Palestina histórica, na fronteira de 1967 parece ter sido inútil devido à insistência israelense de consolidar sua ocupação, triplicando o número de colonos durante os últimos 20 anos de “processo de paz” e levando a cabo ações para anexar território ocupado, sendo o muro a mais espetacular delas.

A única maneira de gerar condições para chegar à paz é terminar com a cultura de impunidade sobre a qual foi construída a máquina de colonização israelense. Apenas então a posição que toda a comunidade internacional apoia, incluindo notavelmente nosso irmão, o Brasil, poderá ser plasmada sobre o terreno: dois Estados soberanos e democráticos, Israel e Palestina, vivendo lado a lado na fronteira de 1967. O muro ajuda a construir o contrário: um regime de Apartheid.

É de esperar que os oficiais israelenses de uma vez por todas deixem de justificar o injustificável. A melhor política de segurança que Israel pode tomar é uma paz justa e duradoura que respeite os direitos de todos, independentemente de sua origem ou religião. Para isso, é necessário criatividade para construir pontes mais do que a brutalidade de construir muros.