Orientalíssimo

por Diogo Bercito

 -

Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

O premiê de Israel entrou no meu ônibus

Por Diogo Bercito
Armamento apreendido por Israel. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Armamento apreendido por Israel. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Eu só queria voltar para casa. Depois de mais de 12 horas na rua, incluindo uma longa viagem até a fronteira sul de Israel, minha meta era entrar no avião e retornar o mais rápido possível a Jerusalém –onde ainda precisava escrever a reportagem publicada hoje na Folha (clique aqui).

Mas o ônibus deu meia-volta e entrou, mais uma vez, na base naval de Eilat, de onde tínhamos acabado de sair. Um colega meu perguntou a um soldado, “o que está acontecendo?”, e alguém sugeriu que tivéssemos nos esquecido de um passageiro. Então Binyamin Netanyahu, premiê israelense, subiu as escadinhas do veículo e apareceu diante de mim, sorrindo.

Com um microfone em mãos (e um segurança ao seu lado), Netanyahu nos agradeceu por termos viajado até o sul do país para inspecionar os armamentos apreendidos na semana anterior, no mar Vermelho. Ele nos recomendou, também, uma visita turística à cidade costeira de Eilat, onde estávamos apenas a trabalho. Só consegui gravar o final da conversa, a que vocês podem assistir no vídeo acima.

Israel tem acusado o inimigo Irã de uma “ofensiva de charme”, enquanto o governo de Hasan Rowhani se aproxima das potências ocidentais com a promessa de um programa nuclear pacífico. Para Netanyahu, por trás dos sorrisos persas se esconde o projeto de construir um arsenal nuclear e extinguir o Estado israelense.

Mas o governo de Netanyahu também está engajado em uma ofensiva carismática. A entrada inesperada do premiê em um ônibus, como um guia de turismo, é a face curiosa desse fenômeno, mas não o único indício. O governo israelense tem demonstrado um enorme interesse em que a mídia internacional reporte a interceptação de um navio no mar Vermelho e a descoberta de um suposto arsenal iraniano rumo à faixa de Gaza –tanto que o ônibus que ele “invadiu” havia sido uma cortesia do governo israelense para facilitar o trajeto de repórteres entre o aeroporto e a base naval de Eilat.

Ali, nós pudemos ver as dezenas de foguetes de longo alcance produzidos na Síria e enviados ilegalmente em um navio mercante com bandeira panamenha. Vimos, também, a munição de fuzis e os morteiros que, caso em mãos de terroristas, ameaçariam milhões de civis israelenses. Nos encontramos com o premiê e com o ministro da Defesa e, no intervalo, almoçamos sanduíches de frango empanado.

Tenho ouvido de amigos e colegas, nos últimos dias, que a operação naval israelense e os próprios foguetes expostos ontem são uma farsa. Os detratores de Israel, incluindo Irã e Hamas, acusam o governo de Netanyahu de forjar as evidências. Como jornalista, reporto ambas as opiniões, mas a abordagem factual também significa que é difícil fechar os olhos para os acontecimentos –por exemplo, a descoberta de mísseis escondidos em sacos de cimento iraniano.

Se o Irã enviou de fato os mísseis, não sei. Suponho que jamais saberei com absoluta certeza. Mas acredito, também, que o tratamento dado aos fatos, em meio a numa nuvem de relações públicas tanto em Israel quanto no Irã, tem de ser também levada em conta para que não façamos uma leitura ingênua da política internacional.

Blogs da Folha

Publicidade
Publicidade
Publicidade