O premiê de Israel entrou no meu ônibus

Armamento apreendido por Israel. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Armamento apreendido por Israel. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Eu só queria voltar para casa. Depois de mais de 12 horas na rua, incluindo uma longa viagem até a fronteira sul de Israel, minha meta era entrar no avião e retornar o mais rápido possível a Jerusalém –onde ainda precisava escrever a reportagem publicada hoje na Folha (clique aqui).

Mas o ônibus deu meia-volta e entrou, mais uma vez, na base naval de Eilat, de onde tínhamos acabado de sair. Um colega meu perguntou a um soldado, “o que está acontecendo?”, e alguém sugeriu que tivéssemos nos esquecido de um passageiro. Então Binyamin Netanyahu, premiê israelense, subiu as escadinhas do veículo e apareceu diante de mim, sorrindo.

Com um microfone em mãos (e um segurança ao seu lado), Netanyahu nos agradeceu por termos viajado até o sul do país para inspecionar os armamentos apreendidos na semana anterior, no mar Vermelho. Ele nos recomendou, também, uma visita turística à cidade costeira de Eilat, onde estávamos apenas a trabalho. Só consegui gravar o final da conversa, a que vocês podem assistir no vídeo acima.

Israel tem acusado o inimigo Irã de uma “ofensiva de charme”, enquanto o governo de Hasan Rowhani se aproxima das potências ocidentais com a promessa de um programa nuclear pacífico. Para Netanyahu, por trás dos sorrisos persas se esconde o projeto de construir um arsenal nuclear e extinguir o Estado israelense.

Mas o governo de Netanyahu também está engajado em uma ofensiva carismática. A entrada inesperada do premiê em um ônibus, como um guia de turismo, é a face curiosa desse fenômeno, mas não o único indício. O governo israelense tem demonstrado um enorme interesse em que a mídia internacional reporte a interceptação de um navio no mar Vermelho e a descoberta de um suposto arsenal iraniano rumo à faixa de Gaza –tanto que o ônibus que ele “invadiu” havia sido uma cortesia do governo israelense para facilitar o trajeto de repórteres entre o aeroporto e a base naval de Eilat.

Ali, nós pudemos ver as dezenas de foguetes de longo alcance produzidos na Síria e enviados ilegalmente em um navio mercante com bandeira panamenha. Vimos, também, a munição de fuzis e os morteiros que, caso em mãos de terroristas, ameaçariam milhões de civis israelenses. Nos encontramos com o premiê e com o ministro da Defesa e, no intervalo, almoçamos sanduíches de frango empanado.

Tenho ouvido de amigos e colegas, nos últimos dias, que a operação naval israelense e os próprios foguetes expostos ontem são uma farsa. Os detratores de Israel, incluindo Irã e Hamas, acusam o governo de Netanyahu de forjar as evidências. Como jornalista, reporto ambas as opiniões, mas a abordagem factual também significa que é difícil fechar os olhos para os acontecimentos –por exemplo, a descoberta de mísseis escondidos em sacos de cimento iraniano.

Se o Irã enviou de fato os mísseis, não sei. Suponho que jamais saberei com absoluta certeza. Mas acredito, também, que o tratamento dado aos fatos, em meio a numa nuvem de relações públicas tanto em Israel quanto no Irã, tem de ser também levada em conta para que não façamos uma leitura ingênua da política internacional.

Comentários

  1. Diogo, mais uma vez parabéns por seu trabalho. Pena que não deu para gravar a inusitada “visita” na íntegra.

    Acho que essa atitude de Netaniahu de subir em um ônibus para falar com jornalistas mostra claramente a guerra midiática sendo travada na região. Infelizmente, é difícil saber o que é verdade hoje em dia. Eu não duvido que a apreensão seja verdadeira, mas daí a implicar diretamente o governo do Irã pelo simples fato dos sacos de comento serem “made in Iran”, já acho que é manipulação israelense.

    Por outro lado, sei também que os gestos de aproximação do Irã com o ocidente são manobras midiáticas para influenciar a opinião internacional. Não confio em nenhum político, seja ele brasileiro, israelense, iraniano, ou o que quer que seja. E o governo iraniano, apesar de seu premiê ser tido como moderado, tem também sua cúpula de radicais que podem muito bem ser os responsáveis por trás desses sacos de cimento. Ou tudo isso pode ser obra de movimentos fundamentalistas agindo sem o aval do governo.

    Enfim, teorias abundam, e o trabalho de gente como o Diogo é importantíssimo – mostrar-nos as peças do quebra-cabeças para que cada um de nós monte a figura que acha correta.

  2. Diogo,Farsa e o que o hamas e o Hezbollah
    fazem junto com o Ira,Farsa sao aqueles
    que em Gaza se fazem de coitadinhos e
    mandam sem parar Kassams e Grads para
    o lado de Israel.Farsa e o Ira dizer que nao esta construindo a Bomba Atomica com o intuito de acabar com Israel.E farsa sao aqueles jornalistas que falam essas bobagens.Nos nao vamos arriscar nosso
    exercito por uma FARSA.E nao e a primeira vez que interceptamos um Navio com Misseis Iranianos.

    1. Muito bem colocado.
      Sempre se coloca uma nuvem de dúvidas sobre os fatos mais claros e documentados.
      Nem um juiz de nosso STF faria uma defesa melhor.

    2. Bombardeia o Irã lá então, champs…

      Sem o papai contra um país melhorzinho vocês apertam né hahaha

    3. Fabio, a máscara do estado sionista cai ano após ano. Não adianta o arrogante e assassino Bibi ser gentil com a mídia, o mundo já sabe quem sois, bem como o futuro levará até voces as consequencias de vossas ações.
      É crer, esperar e ver acontecer.
      Viva a Palestina livre!

    4. Meu caro Fabio, no dia em que Israel desocuem o solo alheio, cessar com o modo Nazi de fazer as coisas deixando jovens, velhos, senhoras e senhores na faixa de Gaza em completa humilhação aí sim tudo se justificará por enquanto sem novidades, Israel é um Estado terrorista com a benção do EUA em troca de milhoes da AIPAC destinados aos politicos estadunidenses…você fala demais

    5. Bombardeia o Irã lá champs…

      Ah, sem o papai contra um país melhorzinho vocês apertam né hahaha

  3. Quando mísseis e foguetes estiverem caindo em território israelense, lançados pelo hamas e o hizbullah, seus colegas e amigos não terão que se preocupar na procura de um abrigo mais próximo.
    Afinal FARSA não faz mal à ninguém.
    Um abraço Luiz.

  4. Diogo,
    Sempre que os árabes são pegos com a mão na massa os jornalistas tendem a colocarem palavras nos textos como : supostos, possível farsa, Israel disse que…não sei se o Irã enviou… Sempre existem muitas dúvidas no ar…
    Neste caso o Irã está tão enrascado quanto o marido pego com batom na cueca. Não tem como negar.
    Aí começam as teorias conspiratórias…
    Tenho amigos que dizem isto, colegas que dizem aquilo ( nada jornalístico, diga-se de passagem).
    Os fatos estão muito claros. O problema é que conseguir a verdade, uma confissão, por parte do Irã é tão difícil quanto encontrar uma agulha no palheiro.

  5. Farsa é o que vocês jornalistas da globo fazem com o povo brasileiro, vocês querem ser o quarto poder no Brasil, pois temos o executivo, o legislativo o judiciário e globotivo, pois vcs conseguem forjar noticias, dizer mentiras e só o que vai na globo é os os outros três poderes respeitam, acho que pensando bem vcs são o primeiro poder no Brasil, com a merda do BBB
    com falsas noticias de políticos, que vcs sem prova colocam em horário nobre no pais, fazem a tudo o que vcs querem, é uma vergonha essa emissora

  6. Pois é Diogo,caso vc se lembre de posts meus anteriores vai entender quando digo que apesar de não terem te servido pipocas foi pelo menos sanduíches de frango empanado.
    Para quem não sabe,houve uma conversa entre Sarkozy e Obama alguns anos atrás que era pra ficar em off mas acabou sendo captado por um microfone aberto desavisadamente que era mais ou menos o seguinte:
    Sarkozy:Nunca vi alguém tão mentiroso como o Netanyahu!
    Obama:E eu que tenho que lidar com ele todos os dias!

  7. Diogo, voce já matou a charada na matéria exposta: um primeiro ministro do estado sionista sendo gentil com a mídia? Parta da premissa de qualquer profissional da sua área, em especial os que cobrem questões belicistas: a mensagem oficial quase sempre é duvidosa, para não dizer-lhe mentirosa.
    Quanto ao cidadão Fábio, é uma pena que ainda haja pessoas que defendam o sionismo proposto pelo estado campeão de desobediências de resoluções do CS da ONU.
    Viva a Palestina livre!

  8. Israel, de vitimas a algozes…
    Ja faz tempo q nem acredito mais nos 5 ou 6 milhoes de vitimas alegadas do holocausto….
    Ha muita sujeira por baixo desse tapete, entao, nao tem como mais acreditar em nenhum lado, com certeza…

  9. Moro em Israel (Ashkelon) e posso dizer com toda a clareza e honestidade, sem puxasaquismo que a captura desse armamento e realmente verdadeira. Nao e de hoje que acontecimentos como este sao expostos ao mundo, mas as pessoas nao dao o devido valor a Israel nesse sentido tambem. Se fosse o contrario, armas israelenses fossem apreendidas por iranianos, o mundo estaria revolto em manifestacoes contra Israel.

  10. A parcialidade do “jornalista” é evidente, para saber quem é o vilao da historia basta comparar o numero de israelitas mortos pelos “terroristas” palestinos e o numero de vitimas palestinas do “simpàtico” governo de Israel…

  11. Recomendo ao Exmo. Jornalista que deixe de morar em Jerusalém ou Tel-Aviv e vá pra o sul de Israel que volta e meia recebe uma saraivada de morteiros e foguetes.

    Quando você escutar a sirene, em vez de correr para um abrigo (quando isso é possível), levante se é fique de pé no meio da praça. Aí sim, você poderá escrever uma asneira dessa sem ao menos citar alguma fonte, isso é claro se você ainda estiver vivo…

  12. Bercito, como sempre, com seus comentários ácidos a respeito de Israel. A Folha de SP devia se envergonhar de manter um correspondente tão tendencioso como você.
    Um pouco mais de imparcialidade de sua parte seria bem mais decente para um jornalista.
    Só queria tentar entender o porquê de você, como correspondente no Oriente Médio, não foi viver em Gaza ou na Cijordania, afinal de contas, você viveria sob regimes extremamente democráticos, não é?
    Mas, você vive em Jerusalém… Vida difícil, hein?

    1. Rossana, obrigado pela sua observação. Mas lhe pergunto por que Israel deveria estar isento de críticas? Não é o que você, como leitora, espera de um jornal –ou seja, que esteja vigilante ao poder, aos governos? Ou há em Israel uma característica própria que, para você, é em si inquestionável?

      1. Estes comentários me fizeram lembrar de uma história do livro “Folclore Político” de Sebastião Nery:
        Ainda eram confusas as informações sobre o golpe militar quando, naquele dia 31 de março de 1964, Benedito encontra José Maria Alkmin e Olavo Drummond no aeroporto de Belo Horizonte:
        Alkmin, para onde você vai?
        -Para Brasília
        -Para Brasília, ah sim, para Brasília.
        Saem os três andando para o cafezinho, Benedito põe a mão no ombro de Olavo e cochicha;
        -O Alkmin está dizendo que vai para Brasília para eu pensar que ele vai para o Rio. Mas ele vai para Brasília mesmo

  13. Essa notícia não passa de uma factoide, ao estilo tabloide mesmo, a Síria está em guerra civil, um pequeno país, onde muçulmanos e cristãos lutam no exército de Assad contra os verdadeiros extremistas, tão criticados por aqui, mas apoiados da forma mais hipócrita possível, pelo Ocidente e Israel que mandam Toneladas de armas, via sauditas nojentos, mas ainda aparecem bobos que acreditam que eles vão exportar armas?

    Nem criança cai nessa piada sionista.

  14. Israel não é, absolutamente, isento de críticas. Tem muitos problemas, mas lá, como uma DEMOCRACIA real, pode-se falar e as coisas acontecem. O que é irritante é ler tua coluna na Folha e o teu blog e ver que você é totalmente parcial. Acho que você poderia, pelo menos, mostrar um pouco o outro lado da história. Acho que o Bibi não é o melhor para Israel, mas é o que temos para tentar sobreviver. Sou brasileira, judia e com família morando em Israel há muitos anos. Conheço os problemas, mas, cada vez que vamos a Israel, fico surpresa com o seu desenvolvimento naquele pequeno pedaço de terra. Acho que você, com as tuas ironias, não tem noção real da importância desta terra para os judeus. Ainda bem que ela existe hoje. Os judeus franceses tem para onde correr, já que o antissemitismo está correndo solto por lá. Durante a Segunda Guerra, não tínhamos este caminho, por isso perdemos tanta gente e de forma tão triste.
    Quanto à farsa, que você deixa subentendido no teu texto, Israel jamais deslocaria tropas dessa forma, por uma farsa, você pode ter certeza.
    Acho que hoje você está na Arábia Saudita, não é? Aproveite e reflita se as mulheres da tua vida( mãe, irmã ou namorada, não te conheço) poderiam andar aí livremente, dirigir ou usar um biquini na praia, como acontece em Israel.
    Por isso perguntei o porquê de você morar em Jerusalém e não em Gaza.
    Faça o favor de ser um pouco menos parcial nas tuas colocações.
    Obrigada pelo retorno.

    1. Rossana, acho que você fez uma leitura equivocada do texto. Eu digo o oposto, que discordo de quem diz que é uma farsa. Eu escrevo no post que estive Eilat, que vi as armas e que é impossível condizer os fatos. Não há ironia nenhuma, a não ser na sua leitura. De qualquer maneira, a existência de um Estado após uma tragédia não exime um governo de ser responsável por seus atos. Assim, ainda que Israel seja uma democracia, tem débitos a prestar contas –e precisa, também, ampliar seu conceito democrático para que englobe todos os seus cidadãos igualmente. E, perdão, mas o meu endereço é irrelevante para esse tópico a e não deveria ser posto em discussão.

      1. Não fiz leitura errada sobre a tua coluna e, tinha certeza que você não publicaria a minha resposta.
        Ok, continue publicando o que não é real… É uma pena.
        Saudades do Marcelo Ninio, que era um correspondente da Folha totalmente imparcial em suas reportagens.
        E enjoy a vida livre em Israel. Sorte sua.

          1. A segunda resposta você não publicou, mas não tem problema. Disse a quem devia dizer e fico triste a respeito desse eterno policiamento da maioria dos jornalistas contra Israel. Estou acostumada. Fico chateada, também, que são poucos os que argumentam sobre o assunto. Enfim, tenha um bom dia.

          2. Rossana, a resposta está publicada sim. Se houver de fato algum comentário que não está publicado, faça o favor de repeti-lo, pois talvez tenha havido um problema no sistema.

  15. Israel mata a cobra e mostra o pau,a lei da sobrevivencia
    torna qualquer um(humanos ou animais)seres mais preventivos,mais ageis,mais espertos,etc,portanto e nesse
    contexto que Israel deve ser entendido.Israel segue a frase de CHE Guevara:hai que endurecer-se pero sin perder la ternura.Pena que a midia so mostra o lado duro
    omitindo a enorme ternura praticada por esse pais.

  16. Prezado Bercito,
    Ser uma democracia é permitir a crítica. Não há outra no Oriente Medio com a abrangência de Israel.Ao se defender 24 horas ao dia contra ataques de um mundo ao seu redor que execra a democracia, na realidade Israel defende a democracia no mundo. Você teve uma pitada sim de ironia em seu texto assim como foi parcial naquele texto absurdo do caminho de Maria. Pessach está chegando e porque não fala de diásporas ? Um povo que foi expulso de sua terra e a vingança foi produzir conhecimento, nunca vingança. Foram quase exterminados e fundaram uma terra que de novo surpreende pelo conhecimento. Um português na semana passada me disse que fica impressionado com tanta produção de conhecimento numa terra cercada e odiada. Na visão dele deve ter sido uma união de desejos de fazer dar certo. Fica a dica da matéria, A volta do Egito, a queda de Massada e a diáspora europeia e o retorno a la Exodus.

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