Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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O que há de árabe na insurgência ucraniana

Por Diogo Bercito

Estou há alguns dias na gélida Kiev, enviado pela Folha para cobrir as manifestações populares ucranianas. É minha segunda passagem pelo país em menos de um mês, enquanto a população se mobiliza pela deposição do presidente Viktor Yanukovich. Encontrei aqui, desta vez, um cenário como aquele que tinha visto no Cairo, há alguns meses, com franco-atiradores derrubando manifestantes e cadáveres se empilhando.

Tenho pensado comigo mesmo se deveria ou não escrever aqui sobre a Ucrânia. Este blog, afinal, é “Orientalíssimo” porque tem em mente discutir apenas as questões do Oriente Médio ou o que estiver relacionado, de alguma maneira, às culturas desta região –como o judaísmo e o islamismo.

Então, entre tiroteios e manobras políticas, decidi como contornar a questão. Escrevo, hoje, sobre o que há de árabe na insurgência ucraniana: a etimologia. Ora, as manifestações têm sido apelidadas de “EuroMaidan”, em um portmanteau entre as palavras “Europa” e “Maidan“. O nome vem da praça da Independência, no centro de Kiev, que em ucraniano se chama “Maidan Nezalekhnosti”.  Mas o que é, afinal, “maidan”?

Vocês certamente conhecem, mesmo que de uma maneira indireta, esta palavra. Aqueles que assistiram ao documentário egípcio “A Praça”, por exemplo, talvez se lembram de que o título em árabe é “maidan”. É uma referência a “maidan al-Tahrir” –a praça Tahrir, onde os egípcios derrubaram seus dois últimos governos. É simplesmente o termo em árabe para esses locais de reunião pública.

Eu posso estar equivocado, e peço que me corrijam as inverdades. Mas, apesar de as agências de notícias terem afirmado que o termo “maidan” é persa, uma consulta a dicionários etimológicos aponta que os persas emprestaram a palavra do árabe, que foi também por essa via à língua urdu. A obra “New Perspectives on English Historical Linguistics”, que consultei em versão digital, dá conta do equívoco na identificação da origem do termo, em uso no inglês desde o século 17. Organizei, no Google Books, um gráfico das menções a “maidan” desde 1700 –a imagem abaixo mostra um pico no início do século 20.

Não descobri, até agora, como a palavra foi importada aqui. Aparentemente, o termo “maidan” existe na língua ucraniana, mas não na russa, apesar de ambas serem bastante próximas. Mas, ao que parece, tanto na Ucrânia quanto na Rússia o termo tornou-se bastante comum para designar regiões de aglomeração pública.

É claro que essas observações são mais pela curiosidade. Ou para que vejamos que, ainda que a cultura ucraniana seja imensamente diversa da árabe, ainda há entre ambos os povos –ou entre todos os povos– um núcleo comum que poderia ser explorado em prol da paz.

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