Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Walt Disney demite Pato Donald antissemita

Por Diogo Bercito
Pato Donald em árabe. Em português, "há alguma outra coisa que possa acontecer?". Crédito Reprodução
Pato Donald em árabe. Em português, “há alguma outra coisa que possa acontecer?”. Crédito Reprodução

Entre as minhas tarefas diárias, como correspondente no Oriente Médio, está a leitura atenta da imprensa. Recebo de manhã, na minha porta, os jornais locais “Jerusalem Post” e “Haaretz” e o americano “New York Times”. Durante o restante do dia, confiro veículos locais como o “Yemen Times” e o “Saudi Gazette”.

Apesar de serem frequentes, as más notícias decepcionam. Principalmente aquelas que dão conta da distância que ainda existe entre o ideal do “salaam”/”shalom”/”paz” por estas terras –e, do outro lado, populações envenenadas pelo rancor e pela linguagem brutal. Isso vale para os árabes que pedem a destruição do Estado de Israel e também para os israelenses que deslegitimam as ambições nacionais palestinas.

A notícia que li hoje, com alguns dias de atraso, é essa que provavelmente atraiu a sua atenção pelo título: a companhia Walt Disney, responsável por clássicos como “Rei Leão” e “A Pequena Sereia”, demitiu seu dublador árabe para o personagem Pato Donald depois de esse egípcio ter tuitado uma mensagem afirmando seu desejo pela demolição de Israel.

Fui ao perfil do rapaz, hoje com 30 mil seguidores, para conferir. Ele retuitava a mensagem original, de agosto de 2013.

Ou seja, “aqui está o tuíte que levou a Disney a encerrar meu papel como voz oficial do Pato Donald nos desenhos dublados em árabe no Oriente Médio”. Em outro relato, ele narrou a demissão e concluiu: “Estou orgulhoso”. De fato –a descrição de seu perfil no Twitter é, agora: “voz oficial do Pato Donald no Oriente Médio, quer dizer, até eu publicar um tuíte antissionista”.

A discussão sobre a diferença entre “antissemitismo” e “antissionismo” é longa, e não cabe neste relato. A rigor, um está relacionado ao ódio contra judeus, enquanto o outro recusa o projeto sionista de retornar a Israel. Mas, em uma análise mais profunda, acadêmicos como Bernard Lewis (desafeto do palestino Edward Said, autor de “Orientalismo”) afirmam que o sentimento anti-Israel é a face contemporânea e politicamente correta do antigo antissemitismo. Vocês, o que pensam sobre isso?

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