Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Aos que pensam que “islã” equivale a “atraso”

Por Diogo Bercito

 

Relógio inventado pelo matemático Al-Jazari, no século 12. Crédito Divulgação
Relógio inventado pelo matemático Al-Jazari, no século 12. Crédito Divulgação

Tão frequentemente quanto ouço a inverdade absurda de que “todo judeu é ladrão”, escuto as pessoas ao meu redor –e especialmente desde que cheguei a Israel– me explicarem que há alguma coisa intrínseca no islamismo e nas sociedades árabes que lhes causa o “atraso” e a “tendência à violência”. São os preconceitos nada inofensivos que, no Ocidente, são comuns para referir-se a judeus e muçulmanos. “Judeus são apegados ao dinheiro”, “muçulmanos são incapazes”. Há pouco espaço para a argumentação quando lidamos com esse tipo de pensamento.

Daí a empolgação quando me deparo com projetos que buscam apontar a opinião pública na direção oposta. Li hoje, no “Saudi Gazette”, sobre um curioso projeto chamado “1001 Inventions”, criado para relembrar os avanços científicos tornados possíveis por muçulmanos, nos últimos mil anos. Ainda que não pareça que os preconceituosos possam ser desmentidos pela racionalidade, ao menos podemos aumentar o repertório na hora de lidar com quem acha, por exemplo, que o islã equivale ao atraso.

O sistema circulatório, por exemplo, foi descrito por um médico sírio chamado Ibn al-Nafis, no século 13. Ibn Sina (em português, Avicena; sécs. 10 e 11), por sua vez, é um dos responsáveis pela descoberta da anestesia, Zakariya al-Razi (secs. 9 e 10) auxiliou no estabelecimento dos hospitais, Ismail al-Jazari (séc. 12) desenvolveu bombas de água e Ibn Yunus al-Masri (séc. 10) descobriu o pêndulo.

A lista é longa. Uma olhada no site oficial do “1001 Inventions” (clique aqui) mostra, por exemplo, que o iraquiano Ibn al-Haytham (sécs. 10 e 11) foi o primeiro a descobrir que a luz viaja em linha reta. Sua sala escura, “al-Bayt al-Muzlim”, é considerada o protótipo para a câmera fotográfica moderna. Al-Khawarizmi (sécs. 8 e 9), por sua vez, introduziu os numerais indo-arábicos, estabelecendo também as bases para a criação de um sistema decimal, como o que usamos hoje na matemática.

Aliás, a linguística já nos avisava da origem desses avanços. Afinal, “álgebra” e “química” são não por acaso palavras árabes. Assim como “cifra” tem por origem o termo “sifr”, que em árabe significa “vazio”, “zero”. Como o buraco nos exemplos de invenções nos séculos seguintes –causados por eventos políticos, incluindo o declínio do califado islâmico.

Ao que parece, o projeto “1001 Inventions” não tem previsão de passar pelo Brasil. Hoje, está exposto na Arábia Saudita, com desdobramentos em cidades como Nova York e Londres. Mas o site tem referências e documentários para quem se interessar, e me parece que os leitores universitários deste blog podem aproveitar o tema para suas pesquisas acadêmicas. Quem sabe assim passamos a entender as crises no Egito e na Síria, por exemplo, a partir de suas bases materiais e políticas, e não religiosas.

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