Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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O dia em que fui preso pela facção xiita Hizbullah

Por Diogo Bercito
Cena de atentado terrorista, em Beirute. Crédito Hussein Malla - 2.jan.14/Associated Press
Cena de atentado terrorista, em Beirute. Crédito Hussein Malla – 2.jan.14/Associated Press

Minha mochila, carregando um computador e uma câmera fotográfica, era motivo de inquietação em Beirute, nos arredores de Haret Hreik. Dias atrás, um carro-bomba explodira ali –onde eu estava, a trabalho, recolhendo informações para minha reportagem sobre a facção xiita Hizbullah (leia aqui).

Mais preocupante, porém, eram as fotografias que eu tirava, tanto com a câmera quanto com meu celular, razão pela qual fui detido por essa facção por quase duas horas em um de seus quartéis, ao sul de Beirute. Mantive silêncio sobre o incidente, ocorrido no sábado (4), para evitar novos confrontos com o grupo, considerado por Israel como terrorista.

A princípio, a abordagem foi feita por um jovem em uma motocicleta, que me perguntava agressivamente a razão de eu estar ali, fotografando. As explicações não lhe convenceram, e em poucos minutos uma multidão havia se reunido nos arredores. Expliquei, em árabe, que sou um repórter brasileiro e que estava no Líbano devido à morte de Malak Zahwe em um atentado a bomba (leia aqui). Me pediram que ficasse quieto e aguardasse.

A câmera, o passaporte e o celular me foram tomados por jovens que se identificaram como “Exército do Povo”, ligados ao Hizbullah. Um líder da facção veio ao nosso encontro e me forçou a subir em uma motocicleta. Fomos levados a um quartel. No caminho, sem meus documentos, na garupa de um militante, eu me lembrava de todas as recomendações de segurança que aprendi em Londres, durante um curso de sobrevivência –nada que eu pudesse usar, ali, em um território repentinamente inimigo.

Fui mantido em uma pequena sala empoeirada, sentado em uma cadeira. Ao tentar abrir as janelas, fui instruído —com pouca delicadeza— a ficar parado e a não tentar me comunicar com ninguém. Durante boa parte do tempo, um líder que se identificou como Abu Fadal sentou-se comigo, me oferecendo café, cigarros e me chamando de “convidado”. Fumamos, enquanto ele me dizia “ma btkhaf, ma btkhaf“. “Não se assuste”, em árabe.

Mas, quando ele me deixava sozinho, eu inspecionava a mesa diante de mim, à procura de qualquer informação. Havia, ali, o que pareciam ser duas vendas pretas, que torci para não usar. Difícil não estar “khaifan”, assustado. Desafeto do governo israelense, o Hizbullah certamente não gostaria de saber que moro em Jerusalém e tenho contato quase diário com as Forças de Defesa de Israel, durante meu trabalho.

Fui tratado com cordialidade durante todo o tempo, assegurado a cada dez minutos de que seria libertado em breve. O diretor da instalação veio duas vezes me acalmar, recusando porém todos os meus pedidos para telefonar à embaixada brasileira. Na pequena sala, sem meus pertences, eu tentava em vão elencar as minhas possibilidades de ação. Recusei o segundo cigarro e o segundo café.

Em sua última visita, o chefe me trouxe de volta o computador, o passaporte e o celular confiscados. Segundo ele, meu erro foi achar que poderia andar por um bairro xiita sem pedir a autorização da facção –explicação que, como bem interpretou mais tarde um colega, dá conta da complicada realidade no Líbano, em que há um segundo Estado, paralelo, capaz de deter um jornalista sem qualquer aparato de governo.

Na saída da detenção, os milicianos me pediram desculpas e finalmente me deram, entre sorrisos, as boas-vindas ao país.

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