Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Um Oriente Médio sem suas fronteiras sangrentas

Por Diogo Bercito
Trajeto percorrido entre Jerusalém e Majdal Silem
Trajeto percorrido entre Jerusalém e Majdal Silem

Sem ter dormido durante a noite, por razões de jornalismo, cheguei de madrugada ao aeroporto internacional de Ben-Gurion, em Israel. De cara feia, recebi o funcionário de segurança que me fez todas as perguntas de praxe. “Quem arrumou a mala”, “onde sua bagagem estava”, “onde você mora”. Quando me questionaram sobre meu destino e respondi “Beirute”, alguns segundos de silêncio. “Beirute?”. “Sim”. “Um momento, senhor.”

Apesar de eu ter sido liberado para embarcar em poucos minutos, a surpresa diante da minha resposta me deixou intrigado durante meu voo. Não porque me pegue desprevenido, mas pela constatação matutina e sonolenta de que as guerras regionais criaram fronteiras absurdas no Oriente Médio, espalhando muros e encontros conflituosos por todo um território que, em uma madrugada ideal, deveria ser uma terra de paz.

Costumo conversar com colegas correspondentes, em Jerusalém, sobre como este território é tão pequeno e, também, sobre como é danoso ao turismo que não haja passagem, por exemplo, entre Israel e o Líbano. As fronteiras de sangue me obrigaram a voar até Amã, na Jordânia, onde embarquei em um segundo voo até Beirute. Depois de pousar, ainda sem ter dormido, entrei em um carro e fui até o sul do país para acompanhar o funeral da brasileira Malak Zahwe, morta em um atentado terrorista (cliquem aqui para ler).

Foram mais de dez horas de viagem, entre sair da minha casa e chegar ao vilarejo de Majdal Silem, onde conversei com os familiares e com os amigos de Zahwe. Não longe dali, depois da fronteira com Israel, estava o vilarejo israelense de Metula, onde estive há alguns anos com amigos para um jantar. Caso tivesse dirigido de Jerusalém até ali, pensei, talvez tivesse tomado três, quatro horas, em um agradável passeio pela Galileia. Assim como talvez fosse possível, em um mundo pacífico, decidir passar um final de semana em Damasco ou em Beirute. Não é.

Essa, é claro, não é uma questão de turismo, ainda que certamente tenha um impacto monstruoso na economia local. É um problema político e social, em que tenho de esconder todos os indícios de que moro em Jerusalém quando saio à rua e tenho de abordar, por exemplo, integrantes da milícia xiita Hizbullah.

Não é um segredo que a convivência entre grupos distintos os ajuda a perceber que qualquer diferença, entre seres humanos, é pequena e pessoal. Discordo da ideia de que haja fronteiras irreparáveis entre árabes e israelenses, e também duvido dos racistas que acreditam haver um abismo biológico ou cultural entre ambos os povos. Não há nada, para além da memória dos conflitos, entre esses falantes de árabe e hebraico, duas línguas irmãs.

Em poucos dias, volto ao aeroporto. Beirute, Amã, Jerusalém. Estarei pensando, enquanto olhar pela janela do avião, em como esses desertos que vou cruzar devem ser muito mais bonitos quando vistos de dentro de um carro, com o vento no rosto.

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