Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Jantando com o negociador-chefe palestino Erekat

Por Diogo Bercito
O negociador-chefe palestino Saeb Erekat ao lado de John Kerry, secretário de Estado americano. Crédito Mike Theiler/Efe
O negociador-chefe palestino Saeb Erekat ao lado de John Kerry, secretário de Estado americano. Crédito Mike Theiler/Efe

Na minha frente, um repórter espanhol discute com um diplomata australiano, entre pitacos de um colega americano. A conversa é intercalada por colheradas no frango tradicional palestino servido em pratos fundos, com um arroz amarelado. Os copos transbordam de refrigerante de limão. Eu ouço uma voz constante vinda do meu lado direito, tentando entrar na conversa. Ninguém está ouvindo. Interrompo meus amigos:

– Ei. Saeb Erekat está tentando falar com vocês.

Nada. Tenho de aumentar a voz.

– Oi, oi. O Erekat está falando.  Sim, com vocês.

Então Saeb Erekat, negociador-chefe palestino, tem a oportunidade de ser incluído em nossa turma e dar o seu palpite: não, o secretário de Estado americano John Kerry não vai viajar em tal data, e sim em outra, e vai se encontrar com fulano, e não com beltrano.

O trabalho de correspondente internacional, quando conseguimos nos aproximar das fontes e ter acesso direto à informação em estado bruto, inclui essas cenas que, quando escrevemos a distância, não conseguimos imaginar:  um jantar com o homem que está negociando a paz entre israelenses e palestinos, em nome do presidente Mahmoud Abbas. Quando os repórteres percebem que têm ignorado Erekat, fazem silêncio, preparam os blocos de nota e abrem os ouvidos.

Éramos um grupo seleto de jornalistas e diplomatas convidados para participar de um tradicional jantar natalino com a liderança da Autoridade Nacional Palestina. Representei a Folha nas duas noites seguidas, no Clube Ortodoxo de Beit Jala, nos arredores de Belém. Ali, ouvi Erekat dizer que a a derrota do extremismo no Oriente Médio necessariamente passa pela paz entre palestinos e israelenses.

O evento marcou a metade das negociações entre Israel e palestinos, retomadas em julho deste ano e previstas para durar até o fim de abril de 2014. O jantar também foi marcado pela insistência de Erekat em sua renúncia ao cargo de negociador, ainda pendente da aceitação do presidente Abbas.

“É pessoalmente doloroso para mim negociar sob esse fardo, entre funerais e demolições de casas”, ele afirmou. “Israel tem de escolher entre a paz e os assentamentos.”

Erekat ressaltou, ainda, a importância dos esforços pessoais de John Kerry, secretário de Estado americano creditado pela retomada do diálogo. “A diferença nessas negociações é Kerry.”

Há uma rígida política de silêncio em torno das negociações de paz, e dessa maneira Erekat não detalhou o que vem sendo discutido. Mas o centro, afirma, continua sendo um Estado palestino nas fronteiras anteriores a 1967. Isso apesar da descrença popular. “Hoje, palestinos e israelenses não acreditam mais nas negociações de paz.”

Nós temos discutido há meses, aqui neste Orientalíssimo blog, as negociações de paz. Mas os avanços não têm sido generosos aos otimistas, então volto a perguntar –quem entre vocês, caros leitores, acredita no sucesso dessas conversas entre israelenses e palestinos, e por quê? Quem quiser se lembrar do que estamos falando, sugiro a leitura de minha entrevista com Erekat há alguns meses (clique aqui).

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