Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Jerusalém parou hoje para ser coberta de neve

Por Diogo Bercito
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Jerusalém interrompeu hoje seu fluxo para deitar-se e ser coberta de gelo na pior nevasca de dezembro desde 1953. Depois de dias de chuva intensa, a cidade manteve seus moradores dentro de casa para observar, pela janela, os flocos em queda. Dentro de suas muralhas, os corajosos arriscavam a caminhada na pedra escorregadia para uma visão incomum — o Muro das Lamentações, o Domo da Rocha e a Mesquita de al-Aqsa esbranquiçados pela neve.

Na cidade antiga, um comerciante palestino me perguntou se eu queria comprar artefatos de madeira de oliveira. “Estou queimando o estoque”, ele afirmou, enquanto uma escultura de duas mãos em prece ardia em uma fogueira improvisada no meio da ruela. É material ruim, ele disse. Pelo menos aquece as mãos dele, no frio. Dando de ombros, ele colocou uma imagem de Cristo no fogo. “Não, Jesus não!”, um amigo cristão gritou. “Não é Jesus, é só uma estátua”, o mercador respondeu, confuso.

A neve pinta tudo de branco, em Jerusalém, cobrindo os fios elétricos e expulsando os carros das ruas. Assim, a cidade se parece mais, para mim, com o que deve ter sido nos séculos passados. O prazer histórico, somado ao estético, é um desafio para as descrições. Pensei comigo mesmo que a neve, rara na cidade, deve ter participado de episódios marcantes dos anais. Uma rápida pesquisa confirmou a suspeita.

O cruzado Ricardo, Coração de Leão, esteve na Terra Santa durante invernos difíceis. Em 1192, ele adoeceu durante seu cerco a Jerusalém. Ao que seu arqui-inimigo Saladino, conhecido por sua piedade islâmica, lhe enviou neve congelada e frutas para que tivesse água para beber durante a guerra. Uma cena impressionante, como é também forte a imagem, hoje, dessa cidade três vezes sagradas embaixo dos flocos muitas vezes frios.

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