Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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“Em um bom Holocausto”, um acordo iraniano

Por Diogo Bercito

Assim como no Brasil, a internet israelense está repleta de piadas virais a respeito da política local. São imagens e frases de impacto que circulam entre os sortudos que leem com fluência em hebraico –ou aqueles que, como eu, têm amigos para ajudar na tradução.

O trocadilho de maior efeito ontem, entre diversos, comparava o acordo assinado entre Irã e potências ocidentais com o genocídio de seis milhões de judeus. Em vez da frase tradicional “be shaah tovah” (“em boa hora”), internautas escreviam “be shoah tovah“, “em bom holocausto”.

Os termos do que foi decidido entre o Irã e os P5+1 (EUA, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha) a princípio diz respeito a esses países. Mas o desenvolvimento do programa nuclear iraniano, que Israel crê ter fins bélicos, é no final do dia também um assunto israelense.

Em primeiro lugar, porque traz ao governo e à população a sombra de uma nova ameaça de extinção, a partir da narrativa de que o Estado iraniano tem por objetivo eliminar Israel do mapa. Mas também porque a diplomacia israelense, e em especial o governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, têm se apresentado como a solução para impedir o Irã de ter um arsenal nuclear.

Com o acordo assinado em Genebra, aliviando as sanções internacionais e dando conta da possibilidade de saída negociada, a coalizão atual perde de certa maneira uma de suas prerrogativas. Pior do que isso — após ter se isolado da comunidade internacional, tendo por aliados Arábia Saudita e países do Golfo, Israel agora encara o fato de que sua ofensiva diplomática só serviu para desgastar as relações com os EUA, sem resultados em termos de estrangular a economia iraniana e manter a bomba atômica como um distante sonho persa.

Crédito Editoria de Arte/Folhapress

Eu frequentemente critico a mídia israelense, principalmente por me surpreender com como uma equipe de repórteres pode viver nesta terra fértil em notícias e, ainda assim, produzir um jornal desinteressante. Mas a edição de hoje do “Haaretz” está excepcionalmente rica, em termos de análises e diferentes pontos de vista a respeito do acordo iraniano. Recomendo a leitura, e indico também, como contraponto, ler o “Jerusalem Post”, que entre textos tendenciosos abre seu caderno opinativo com uma citação sobre o Holocausto.

Ao que voltamos ao início deste relato. Retornamos a como um acordo assinado em Genebra entre potências europeias, os EUA e o Irã pode impactar Israel, tanto simbolicamente quanto em termos reais. Pois talvez seja possível argumentarmos que um Irã nuclear é também danoso à Arábia Saudita, espada do sunismo e desafeto da nação persa — mas, por lá, o programa nuclear iraniano não é visto como ameaça existencial, e sim como perda de terreno nas esferas de influência regionais. São apenas narrativas diferentes, ou experiências diversas?

Fato é que, como escreveu Ian Black no jornal britânico “Guardian” (veja tradução da Folha aqui), o pacto iraniano deve alterar as relações no Oriente Médio. Um trecho:

Ainda é cedo para saber se o acordo nuclear selado em Genebra prenuncia uma fase nova na teia de relações entre o Ocidente, Irã, Israel e os árabes. Mas as reações iniciais sugerem que é um passo importante e que possui o potencial de mudar o status quo vigente há 30 anos.

Quando a notícia dramática chegou da Suíça, já era manhã em Teerã, Riad e Jerusalém, de modo que as primeiras horas do domingo ecoaram com o rugido de um deslocamento tectônico no Oriente Médio -e da corrida de vários governos para decidir qual seria sua resposta.

A hostilidade mútua entre Irã e EUA formou o pano de fundo do que aconteceu desde a grande ruptura de 1979, quando um ditador pró-americano foi deposto pela Revolução Islâmica, até a pior crise atual no Oriente Médio, a devastadora guerra na Síria.

Agora, pergunto aos leitores — o que vocês pensam sobre o acordo interino estabelecido com o Irã, no que diz respeito a Israel?

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