Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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O ministro, o rabino e o reflexo distorcido em Israel

Por Diogo Bercito

Me mudei de apartamento, ontem. Desci algumas ruas e moro agora no centro de Jerusalém no prédio apelidado “Bait HaMaalot” (“casa das alturas”, em hebraico) por ter um dos primeiros elevadores da cidade. Tomei hoje o primeiro banho no meu novo chuveiro, e tive de controlar o registro com cuidado para a água não ficar nem muito quente, nem muito fria. Por algum motivo de encanamento, está difícil encontrar o meio termo.

O esforço me lembrou de dois recortes do jornal de ontem, guardados na minha carteira para me lembrar de escrever sobre um tema afim ao do chuveiro ora quente, ora frio –a manobra dos extremos políticos, em Israel, em meio aos atônitos moderados e aos observadores externos de má-vontade. O primeiro recorte é a declaração de um ministro da Autoridade Nacional Palestina. O segundo, a fala de de um influente rabino ultra-ortodoxo. Ambos têm publicamente opiniões que incomodam pelo extremismo –e, publicados nos jornais, sem contexto, podem produzir um retrato distorcido da sociedade israelense.

Do lado dos palestinos, me refiro a Mahmud Habbash, ministro palestino para Assuntos Religiosos. Ele afirmou, nesta semana, que o ex-líder palestino Yasser Arafat “morreu como um mártir”, assassinado por Israel. A afirmação está inserida no contexto das recentes declarações de que Arafat morreu envenenado por polônio, o que ainda se está por provar, assim como não há evidências que realmente apontem para uma ação israelense. Para Habbash, Arafat foi assassinado da mesma maneira que o profeta Maomé: morto pelos judeus. A afirmação, além de inflamatória de maneira desnecessária, não parece exatamente histórica. Já li algumas biografias de Maomé, e nunca me deparei com bons argumentos para a ideia de que o profeta foi envenenado por judeus.

Os extremistas israelenses foram representados na imprensa, ontem, pelo rabino influente Amnon Yitzhak, que –a exemplo das autoridades sauditas– fez declaração religiosa afirmando que as mulheres não podem dirigir. Para o rabino, o carro é o substituto da carruagem, “e nunca houve uma coisa como uma mulher dirigindo uma carruagem”. “Não é modesto para uma mulher ser uma motorista”, ele afirmou, marcando seu ponto final na questão.

Mostrei ambos os recortes a um colega jornalista, durante o almoço. Ele me alertou de que noticiar as declarações de Habbash e Yitzhak equivaleria a trazer extremos ao centro, distorcendo a imagem. Concordo com ele. Mas acredito, também, que contextualizar as falas do ministro e do rabino pode servir de alerta a todos nós quando estivermos discutindo a política médio-oriental e, em especial, a israelense. Já que, apesar de tanto Habbash quanto Yitzhak representarem setores existentes da sociedade,  ambos não representam todo o espectro político, que inclui por aqui –como no Brasil, nos EUA, na Europa ou em qualquer lugar– um espectro que vai da esquerda à direita.

Aproveito para reeditar um diagrama que publiquei, em janeiro, na edição impressa da Folha. Pode ser útil aos leitores que ainda estiverem se habituando à fauna política israelense. Abro, assim, o debate neste relato para ouvir de vocês o que pensam do espectro político na região.

 

Principais partidos políticos em Israel. Crédito Editoria de Arte.

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