Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Drummond e os territórios palestinos

Por Diogo Bercito

Peço perdão aos leitores por minha ausência neste blog. Estou fora do país, a trabalho, e não vou conseguir atualizar meus relatos. Mas, como quero manter um diálogo constante aqui, vou sugerir como tópico para discussão minha reportagem recente na Folha sobre os jardins do vilarejo de Bilin, plantados em cápsulas de gás lacrimogêneo. Vocês podem ler o texto original clicando aqui.

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Foi minha segunda passagem por Bilin nos últimos meses. Antes, eu havia estado ali para entrevistar o cineasta Emad Burnat, autor do documentário “5 Câmeras Quebradas”. A vila de Bilin se destaca na região por dois motivos, ambos personificados em Burnat. Em primeiro lugar, porque Bilin é o centro de atividades de resistência palestina, o que significa que a região é constantemente monitorada pelas forças de segurança de Israel em termos de distúrbios e terrorismo. Não por acaso meu carro foi revistado pelo Exército, incluindo o motor, quando saí do vilarejo –pela primeira vez desde que cheguei a Israel, em março.

Outro motivo para que Bilin se destaque entre outros vilarejos é o fato de que, por Burnat ser casado com uma brasileira, toda a região ter uma estranha afinidade com o Brasil. Não apenas a porta da casa do cineasta, que é pintada com a bandeira brasileira, e não só seus filhos, que caminham com camisetas da seleção. Na minha recente visita, encontrei uma nota de R$ 1 em um mercadinho, enfeitando a parede.

Tudo isso dito, decidi começar a reportagem sobre as flores da guerra citando uma versão modificada de um poema brasileiro que, em retrospecto, parece ter sido composto para um momento como esse:

Tivesse Carlos Drummond de Andrade nascido no vilarejo de Bilin, na Cisjordânia, talvez o seu poema “A Flor e a Náusea” variasse. Em vez de “uma flor nasceu na rua!”, o autor escreveria algo como:

“Uma flor nasceu na granada! / Passem de longe, blindados, tanques, rio de aço do tráfego / Uma flor ainda desbotada / rompe o gás lacrimogêneo / É feia. Mas é flor. Furou o cartucho, o tédio, o nojo e o ódio.”

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