Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Eu <3 o regime militar do Egito

Por Diogo Bercito
Garota com o rosto pintado dizendo “Eu amo Sisi”. Crédito Reuters

No Egito pós-golpe militar, a imagem do Exército e, principalmente, a figura do general Abdel Fattah al-Sisi, tornaram-se inesperadamente ícones nacionais.

Me lembro de, nas minhas duas últimas passagens pelo Cairo, me surpreender com as fotografias do general e com os aplausos das multidões para os helicópteros militares sobrevoando a praça Tahrir.

A mídia estatal publicou, neste sábado (21), duas histórias que dão conta dos avanços políticos de um país que havia, há dois anos, destronado o ditador Hosni Mubarak –ele próprio advindo das fileiras do Exército, o que torna esses relatos ainda mais confusos.

Um fazendeiro foi detido por ter dado o nome de Sisi a um jumento e vestido o animal com um boné militar, como aquele usado pelo general nos cartazes espalhados pela cidade. O egípcio, de nome Omar Abu al-Magd Ali al-Saghir, foi preso na sexta-feira (20) no centro do país pelo crime de ofensa, de acordo com a agência estatal Mena.

Sisi, visto como mentor do golpe de Estado de 3 de julho, hoje acumula os cargos de líder militar, ministro da Defesa e vice-premiê. Há uma petição para que ele se candidate a presidente do Egito. Para quem acompanhou o golpe militar, foi Sisi quem anunciou a deposição do presidente, na televisão.

Seu nome tem sido abreviado, no país e no exterior, como “CC” —que, em inglês, lê-se “Sisi”. Circulam, há semanas, fotos de pães assados em formato de letra “C”, em sua homenagem.

O jornal “Al-Ahram” publicou, por sua vez, o relato de um islamita que teria tentado atear fogo a uma amiga após ouvir o toque de celular dela, supostamente pró-Exército. De acordo com a mídia, ele teria jogado gasolina na mulher, de 23 anos. Ela prestou queixa à Polícia.

A música do celular dela era “Tislam al-Ayade”, ou “que Deus recompense as mãos”, uma espécie de agradecimento às Forças Armadas pela deposição do presidente islamita Mohammed Mursi, ligado à Irmandade Muçulmana.

Com a repressão violenta do Exército, os setores islamitas da sociedade estão sendo progressivamente isolados no Egito. As manifestações públicas, antes repletas de apoiadores, têm sido esvaziadas. Em agosto, centenas deles foram mortos no massacre da mesquita de Rabia al-Adawiya. Milhares, incluindo o ex-presidente, estão presos.

Toque de recolher, censura à imprensa e uma guinada na direção oposta da democracia. Deixo aos especialistas que nos expliquem, um dia, a corrente devoção ao Exército do Egito.

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