Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Conheça Obabiyi, a nigeriana “Miss Muçulmana”

Por Diogo Bercito
Obabiyi Aishah Ajibola coroada “Miss Muçulmana”. Crédito Beawiharta/Reuters

A Indonésia coroou, na quarta-feira passada (18), a rainha entre as muçulmanas –a nigeriana Obabiyi Aishah Ajibola, vencedora do concurso internacional “Miss Muslimah World”, uma espécie de “Miss Universo” voltada não apenas à beleza física, mas também aos valores religiosos.

Há uma série de questões legítimas nesta notícia. O uso do véu, por exemplo. Enquanto no Ocidente há constante preocupação em relação a essa tradição, vista como uma violação dos direitos humanos, a resposta ao dilema cultural é por enquanto nebulosa. Se é incômodo a não muçulmanos estar diante de uma mulher coberta por panos, me parece que é também difícil a elas ter de ouvir que estão culturalmente equivocadas. Em maio, conversei com as garotas que participaram de um desfile de moda de véus islâmicos (leia aqui) e ouvi delas que são “vítimas de pessoas nos dizendo o que não vestir”. A pensar.

Para além disso, o concurso da “Miss Muçulmana” parece ser uma interessante experiência, ao coroar a mais pia entre as seguidoras do islamismo. É complicado que a competição inclua apenas muçulmanas, excluindo outras participantes, mas a escolha tem também de ser avaliada a partir da noção dominante no islamismo de “umma”, a comunidade. A ideia de “umma” foi uma das importantes inovações teológicas do profeta Maomé, na península Arábica, ao criar uma comunidade ditada não pelos laços familiares ou tribais, mais pela crença em um mesmo deus.

De acordo com o relato da rede de TV “Al Arabiya”, a competição da “Miss Muçulmana” –patrocinada por uma marca de maquiagem específica para mulheres islâmicas– julgou as participantes em critérios que incluem vestimenta, piedade, conhecimento religioso e compreensão do Alcorão. Não há teste do biquíni.

O concurso foi criado pela âncora de TV Eka Shanti há três anos, após sua demissão por recusar-se a retirar o véu durante uma transmissão. “É a resposta aos concursos de miss”, ela disse à agência de notícias AFP. “Há papéis alternativos para as mulheres muçulmanas.”

“Nós só estamos tentando mostrar ao mundo que o islã é bonito”, afirmou a vencedora Ajibola em Jacarta. “Somos livres e o véu é nosso orgulho.”

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