Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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A história serpenteia no Egito

Por Diogo Bercito

 

Manifestação de apoio ao presidente deposto Mohammed Mursi. Crédito Joel Silva/Folhapress

Quando ouvimos que “o mundo mudou”, por vezes pensamos que a expressão está vazia de significado. É claro, ele sempre muda. O rio Nilo sempre flui adiante. O tempo não regride. O Egito unificado por Menes, no 4º milênio antes de Cristo, testemunhou inúmeros desvios de curso e sabe, instintivamente, que a história é constante mutação. Aquenáton impôs o monoteísmo, Tutancamôn foi assassinado, Cleópatra e Marco Antônio viveram um amor soberbo e letal, Napoleão desembarcou nas areias quentes do delta do Nilo, o Império Otomano ruiu. Nada permanece.

Mas, no Cairo, estou surpreso em como as transformações ocorrem agora em uma perspectiva tangível. Há pouco mais de um mês, estive aqui para cobrir o golpe de Estado que depôs o islamita Mohammed Mursi. Durante o dia, me sentava com manifestantes da Irmandade Muçulmana na mesquita de Rabia al-Adawiya. À noite, eu caminhava nas beiradas do Nilo, com os olhos brilhando pelas luzes dos barcos. A cidade estava viva. A cidade parecia segura.

Os dias se passaram. Na última quarta-feira, o Exército massacrou islamitas em Rabia al-Adawiya. Voltei ali durante esta semana –a mesquita está destruída pelo fogo, tomada pelas Forças Armadas. O símbolo da Irmandade Muçulmana virou cinzas. Da mesma maneira, as centenas de milhares de manifestantes com quem marchávamos em julho sumiram. Agora, as manifestações serpenteiam por ruas estreitas, sob o medo da repressão policial. Há, nos olhos das pessoas, aquele fundo sombrio de quem não sabe se, à noite, vai jantar com sua família.

Temos de admitir que é impressionante, para não dizer assustador, que a Irmandade Muçulmana possa ter ido da Presidência às sombras em tão pouco tempo. Ao que tudo indica, acreditar no projeto de um islã político vai, em breve, se tornar ilegal no Egito. Mal sinal –porque significa que, do subterrâneo, islamitas vão ter de recorrer às táticas de quem não tem alternativas regulares. Não vai ser surpreendente se ouvirmos explosões no Cairo, um dia. Líbia, Síria, Iraque e Afeganistão são imagens aterrorizantes, agora.

Menes deve ter pensado, quando unificou os reinos egípcios, que seu projeto era eterno. Os politeístas que adoravam Osíris e Amon Rá, também. Aquenáton queria um só deus. Tutancamôn não achava que poderia morrer. Cleópatra e Marco Antônio pensavam que o amor fosse o suficiente. Napoleão acreditava que veria um mundo prostrado. Os imperadores otomanos duvidavam que a Europa os vencesse um dia.

Não sei por quanto tempo estarei no Cairo. Não sei quando volto. Mas, por ora, desisto de olhar adiante e imaginar que eu possa saber o que está por vir.

Cartaz com a fotografia do presidente deposto. Crédito Joel Silva/Folhapress
Manifestante islamita faz grafite em muro, durante passeata. Crédito Joel Silva/Folhapress
Concentração em mesquita, antes de marcha islamita. Crédito Joel Silva/Folhapress
Marcha na meia-luz, no Cairo. Crédito Joel Silva/Folhapress
O Sol de fim de tarde, durante manifestação. Crédito Joel Silva/Folhapress

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