Orientalíssimo

por Diogo Bercito

 -

Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

No Cairo, o cheiro da morte

Por Diogo Bercito
Entrevistando islamitas diante da mesquita de Imam, no cairo. Crédito Joel Silva/Folhapress

Não quero repetir o que já escrevi na edição de hoje (sexta-feira, 16/ago) da Folha. Mas, acordando no Cairo um dia depois de ter visto as vítimas do massacre dos seguidores do presidente deposto Mohammed Mursi, ainda é difícil me esquecer do que eu e o fotógrafo Joel Silva vivemos ontem.

Mais do que a visão dos corpos embalados em panos brancos, dos rostos pálidos dos mortos, ficou impregnado na memória o cheiro dos cadáveres. No ar pesado, a putrefação se misturava ao perfume, talvez de lírio, que fazia a atmosfera dentro da mesquita de Imam ter um quê de feérico, de irreal, de lugar imaginário. Porque é difícil acreditar que centenas de mortos possam ser empilhados, conservados com gelo, sem que a gente perceba que alguma coisa monstruosa está espreitando o Egito.

O país, que o historiador grego Heródoto chamou de “a dádiva do Nilo”, elegeu Mursi em 2012 como seu primeiro presidente democrático. O islamita, ligado à Irmandade Muçulmana, subiu ao poder para substituir o ditador Hosni Mubarak, após décadas de regime. Fora um momento histórico, um doce fruto da Primavera Árabe, após uma era de perseguição política.

Mas o fiasco econômico, somado a medidas conservadoras rejeitadas pela população secular, levaram milhões de volta às ruas em junho deste ano, culminando em um golpe de Estado em 3 de julho. O fruto, como os cadáveres, apodreceu. Estava de volta o Exército à cabeceira da mesa do jogo político, e retornaram também os massacres, a repressão e os lamentos das vítimas estiradas sobre seus mortos.

Na quarta-feira, ao menos 638 pessoas foram massacradas pelas forças de segurança, durante manifestações. A liderança da Irmandade Muçulmana está morta, presa ou amedrontada. O porta-voz Gehad el-Haddad, com quem tantas vezes conversei aqui no Cairo, está escondido e não fala mais com a imprensa. Um outro líder islamita me pediu, ontem, que eu nunca mais telefone para ele.

Voltaram, também, o estado de emergência, o toque de recolher e, por enquanto, um silêncio calmo nas margens do Nilo, típico da cidade que acorda, hoje, sem saber o que vai ver nos próximos dias. Quando comprei a passagem para o Cairo, no mesmo dia em que dois repórteres foram mortos aqui, a agente de viagem me perguntou se eu não estava assustado. Não que eu não esteja. Mas me assusta mais, hoje, pensar nas pessoas sem colete de proteção, sem capacete e, ainda mais grave, sem nenhuma perspectiva de ter diante de si um futuro de paz.

Mortos chegam à mesquita de Imam, no Cairo. Crédito Joel Silva/Folhapress.
Familiar lamenta vítima, após massacre no Cairo. Crédito Joel Silva/Folhapress.
Corpo envolto em panos chega à mesquita. Crédito Joel Silva/Folhapress.
Corpos mantidos com sacos de gelo, em meio ao cheiro putrefato. Crédito Joel Silva/Folhapress.

Blogs da Folha