Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Jerusagay

Por Diogo Bercito
Drag queen canta uma música de Barbra Streisand, musa gay –e judia. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Foram dez minutos constrangedores. Quando perceberam o cheiro forte, as pessoas começaram a se perguntar, tímidas –o que é isso? Esterco? Pode ser, mas não é o que parece. O odor, a bem da verdade, é de fezes. Alguém pisou em alguma coisa? Não. Um pouco mais adiante, as milhares de pessoas que marchavam nas ruas de Jerusalém entenderam: alguém pusera sacos de plástico com urina e fezes de cavalo no meio da rua, como uma maneira de protesto.

A parada gay de Jerusalém, como se vê, não agrada a todos os moradores da cidade dita santa. Apesar de, nos últimos anos, a situação ter se mantido calma, com incidentes isolados, há um clima tenso ao redor da manifestação. Para participar, é necessário ser revistado. Durante as três horas de marcha, a multidão passa também por um judeu ultra-ortodoxo com um cartaz registrando dizeres bíblicos e condenando a homossexualidade.

À parte dos obstáculos, o evento correu bem hoje à tarde. Cerca de 3.000 pessoas foram a pé desde o Parque da Independência até o Parlamento israelense, onde se reuniram para ouvir música e assistir a discursos. É um evento, que fique bem entendido, bastante político. Em vez dos homens de sunga e do clima de festa, a parada gay jerosolimita reúne partidos políticos de esquerda e, como brinca uma amiga minha, “tem mais hétero do que gay”. Não há álcool.

É, para quem já participou de eventos parecidos ao redor do mundo, um pouco frustrante. Não há a histeria típica das paradas, por exemplo, de São Paulo ou do Rio. Mas as manifestações em Jerusalém são, por outro lado, uma demonstração de civilidade. Discursos aplaudidos e traduzidos simultaneamente para a linguagem de sinais. Pais levando os filhos pequenos pelas mãos. Policiais monitorando a passeata.

Jerusalém é, no folclore israelense, o reduto dos conservadores que não sabem dialogar. Mas, durante a parada gay, precisamos admitir também que a cidade tem demonstrado uma vocação para ao menos tentar discutir a tolerância, em vez de forçá-la.

A caminho do Parlamento israelense, na parada gay de Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Antenas peludas para todos os orgulhosos, incluindo ursos e nacionalistas. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Artistas de rua dançam durante marcha da parada gay, em Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

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