A morte de um jovem fotógrafo no Cairo

Por Diogo Bercito
O fotógrafo Ahmed Samir Assem, 26, morto no cairo. Crédito Arquivo Pessoal (Facebook)

Eu li a notícia sem prestar atenção. Em meio aos relatos de um massacre durante a madrugada, e entre tanta informação desencontrada durante os dias que se seguiram ao golpe militar egípcio, não me interessei de imediato pela história do jovem fotógrafo que supostamente filmou a própria morte, no Cairo.

Até que, ontem, um amigo me enviou uma mensagem –“Você viu que o Ahmed morreu?”.

Embaixo do texto, um link (clique aqui, se quiser ler). O subtítulo da reportagem, “Ahmed Samir Assem fez a imagem mais emblemática de um país mergulhado no caos”.

“Ahmed” é um nome comum no mundo árabe. É uma variante de “Muhammad”, de “Mahmud”. “Samir”, “Assem”, nada disso me dizia nada. Mas a foto do rapaz, sorrindo à câmera –reconheci o jovem de 26 anos que encontrei, por meio de um amigo brasileiro em comum, nas ruas de Nasr City, no Cairo. E descobri que ele estava morto.

Ahmed era um militante islamita. Ele me levou até a mesquita de Rabia al-Adawiyah, onde os simpatizantes do presidente deposto Mohammed Mursi se aquartelavam, e me apresentou às lideranças da Irmandade Muçulmana. Delicado e atencioso, o rapaz queria que eu entendesse o objetivo da resistência islamita. Devo a ele a semana que passei ali, durante as manifestações diárias. Os leitores da Folha também devem alguma coisa a Ahmed, caso tenham lido minhas entrevistas com Gehad el-Haddad, Mohamed Beltagy e outras lideranças do movimento.

O garoto foi um dos 51 mortos na madrugada do dia 8, quando o Exército do Egito disparou contra manifestantes diante da Guarda Republicana, onde se acredita que Mursi esteja detido. Ahmed filmava um franco-atirador disparando na multidão –até que o soldado apontou para ele, e a câmera se desligou.

Ahmed, que estudava comunicação na Universidade do Cairo, trabalhava para o jornal Al-Huria wa al-Adala, ligado ao braço político da Irmandade Muçulmana. Um amigo em comum me diz que o rapaz mudou drasticamente, nos últimos anos. Um colega que esteve comigo no Cairo me lembra que Ahmed nos disse, em uma tarde qualquer daqueles dias de golpe, que queria ser um mártir na luta pela restituição do governo Mursi.

Alguém me diz, ironicamente, que ele realizou seu objetivo. Mas, do pouco que eu conhecia o jovem Ahmed, não imagino que ele pudesse querer ter encerrado seus 26 anos com um tiro na testa, deitado na poeira de uma rua cairota.

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