Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Um golpe militar no Antigo Egito

Por Diogo Bercito
Estátua do faraó egípcio Horemheb, da 18ª dinastia

Milênios separam os acontecimentos políticos registrados na semana passada, no Egito, daqueles testemunhados durante as dinastias faraônicas erguidas pelo suor salgado dos escravos nas beiradas do Nilo.

Mas a história antiga desse país africano tem um precedente àqueles que veem na deposição do islamita Mohammed Mursi, na última quarta-feira, uma receosa guinada ao mando militar.

Abdul Fatah al-Sisi, líder do Exército egípcio, poderia olhar-se em um espelho d’água e enxergar, no reflexo, o general Horemheb, último faraó da 18ª dinastia, cujo reinado provavelmente iniciou-se em torno de 1.306 a.C.

Ambos chefes militares, tanto Sisi quanto Horemheb desempenharam no Egito um papel político determinante. Horemheb, com posto de liderança no país durante o período de Tutancâmon e Ay, tornou-se faraó, mesmo tendo provavelmente nascido em uma família sem sangue real.

Ao assumir o poder, o general foi um dos responsáveis por destruir monumentos e combater a onda monoteísta erguida durante o mando do faraó Aquenáton. Ao morrer, Horemheb foi sucedido pela dinastia de Ramsés I.

As Forças Armadas são, no Egito contemporâneo, uma instituição presente e potente, sendo responsáveis por larga fatia do PIB e por setores estratégicos da economia, como a construção civil.

É uma entidade ostensiva, também, como ficou patente a partir dos frequentes sobrevoos de aviões e helicópteros com bandeiras nacionais, nos últimos dias. A passagem das aeronaves levava as multidões à histeria, nas ruas cairotas.

O futuro político de Sisi permanece, no entanto, incerto. O Exército substituiu Mursi pelo então chefe da Suprema Corte Constitucional, Adly Mansur, e afirma que o país verá em breve novas eleições parlamentares e presidenciais. A nomeação ao cargo de premiê e vice-presidente, porém, tem causado racha entre os partidos políticos. Não serão dias fáceis os próximos.

O que está evidente nas ruas do Cairo é que o general tornou-se em poucos dias o novo herói nacional para a oposição –e um traidor da democracia, para os seguidores da Irmandade Muçulmana, cujo presidente democraticamente eleito foi deposto.

Não concordo com quem crê ser estéril pensar no passado para entender a situação presente. Na verdade, minha convicção é oposta, ainda que talvez antiquada –o estudo da história serve justamente para nos ajudar a ter a noção da perspectiva dos acontecimentos. Sou filho de uma historiadora, e tive a honra de estudar o Antigo Egito pelas mãos dela.

O Egito vai continuar no noticiário pelas próximas semanas. Para quem achar que a narrativa do presente não basta, sugiro a leitura do romance histórico “O Egípcio” (Mika Waltari), sobre a vida de um médico durante o período de Aquenáton. Foi quando conheci Horemheb e visitei o Egito pela primeira vez durante a adolescência –na minha imaginação.

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