Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Os árabes escolhem seu novo ídolo

Por Diogo Bercito

Todos os árabes se chamam, hoje, Mohammed Assaf. É o nome do garoto de 23 anos que foi escolhido, no sábado (22), como novo ídolo do mundo árabe por meio de um reality show de TV no estilo “American Idol”.

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Assaf competiu, na final, com um candidato egípcio e outro sírio, no zênite desse programa televisivo que me faz lembrar, de alguma maneira, o pan-arabismo em sua faceta histórica –não o socialismo do presidente egípcio Gamal abd al-Nasser (1918-1970), mas a noção de uma comunidade única unida pela língua árabe e, antes dela, pela crença na revelação divina ao profeta Maomé.

Quando Maomé falou aos habitantes de Meca, no século 7º d.C, ele estava lidando com uma península retalhada em tribos e regida por códigos morais e de hombridade. Em poucos anos, o profeta do islamismo uniu os árabes no que passou a ser chamado de “umma”, a “comunidade”. É uma noção que persiste até hoje.

Os séculos se passaram. Após a morte de Maomé, a “umma” teve de decidir como levaria adiante o projeto comunitário. Tribos se rebelaram e foram reprimidas pelas mãos firmes do primeiro califa, Abu Bakr. Mas logo a liderança da “umma” tornou-se uma questão central no islamismo, levando à divisão entre sunitas e xiitas, discordantes em relação a quem deveria dar continuidade aos ideais de Maomé.

O império islâmico se derramou pelo mundo conhecido. Derrubou bizantinos e persas, tomou o norte da África e se estabeleceu na península Ibérica, ameaçando a França. Mas logo esse califado fragmentou-se, e o poder foi dividido entre cidades como Bagdá, Damasco, Cairo e Córdoba. Então vieram os cruzados, os mamelucos, os otomanos e os europeus. Hoje, o território um dia unificado está dividido em Estados como Síria, Líbano e Iraque. Desnecessário dizer que, em sua maioria, os países árabes enfrentam séria crise.

Então, de volta a Assaf e à sua vitória nesse programa que colocou árabes de todo o mundo para disputar, na frente das câmeras, o posto de ídolo da “umma”. Assaf é palestino, morador da faixa de Gaza. O músico libanês Ragheb Alama definiu o rapaz como “um foguete de amor e paz voando sobre as cidades da Palestina, Jerusalém, Nazaré, Gaza e Ramallah”.

Mas, olhando de perto, a unidade dos árabes que assistiram juntos ao redor do mundo à final do “Arab Idol” é frágil como foi frágil a coesão dos califados após a morte de Maomé.  O programa foi exibido pelo canal saudita MBC, sob protesto de setores conservadores. O Hamas, que governa a faixa de Gaza, impõe uma série de restrições à música nesse território empobrecido, e houve críticas até mesmo ao fato de que o “Arab Idol” misturava homens e mulheres no mesmo palco.

Desde a invasão americana no Iraque, em 2003, é difícil falar em unidade entre árabes. Sunitas e xiitas parecem estar, a cada dia, mais em conflito, mais em oposição. Ser escolhido herói dos árabes, nesses tempos, será um desafio a ser resolvido, a partir de hoje, pelo jovem Assaf. Como dizemos em árabe, “bitawfiq” –boa sorte.

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