Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Rabino, ortodoxo e gay

Por Diogo Bercito
Jonathan e Davi, em ilustração de Caspar Luiken (séc. 18). Crédito Reprodução

Em meio a discussões sobre disputas armadas, sobre guerras na Síria, mísseis no Líbano, explosões no Iraque –nos esquecemos das guerras internas. Não as civis, mas aquelas que disputamos sozinhos, todos os dias, às vezes em vias de sermos derrotados. Dilemas morais, crises éticas, crises de identidade.

O jornal israelense “Haaretz” nos lembra de uma dessas guerras, em sua edição de final de semana (leia a reportagem aqui, se tiver senha de acesso). É a história do rabino Steven Greenberg –ortodoxo e gay.

Greenberg conta à repórter Dalia Karpel, no texto do “Haaretz”, como foi a luta de descobrir-se gay durante a infância e, ao mesmo tempo, dedicar-se à carreira de rabino na comunidade ortodoxa judaica. Afinal, Levítico 20:13 escreve que “Se um homem se deita com um homem assim como faz com uma mulher, ambos cometeram uma abominação” (a tradução é livre).

“Eu digo aos rabinos: Não estou pedindo que vocês modifiquem a halakha [conjunto de práticas]. Estou pedindo que vocês assumam a responsabilidade por todos os seres humanos, incluindo aqueles nascidos gays”, afirma Greenberg, que transformou suas contradições em material de estudo.

O rabino esteve em Jerusalém por ocasião do lançamento de seu livro, “Wrestling with God & Men: Homossexuality in the Jewish Tradition”, em hebraico. A edição americana já tem dez anos.

A obra de Greenberg é dividida em quatro partes. A primeira traz textos sagrados e discussões sobre a homossexualidade. A segunda reúne relatos do amor entre homens (Davi e Jonathan, na Bíblia, por exemplo). Na terceira parte, ele discute o texto de Levítico. Por fim, escreve sobre como as sinagogas podem ser mais inclusivas em relação aos homossexuais.

A questão é multifacetada, por aqui. Tel Aviv é considerada uma das cidades mais gays do mundo. Casais homossexuais andam de mãos dadas, na praia. Há festas, há bares –e Israel tem seu próprio diretor gay, Eytan Fox, cujo filme “Yossi” (2012) abre uma mostra de cinema israelense em São Paulo em junho.

Mas a importância da religião para o Estado e sua aparente contradição estrutural em relação à homossexualidade são uma constante fonte de atrito. Com a vantagem de que a questão vem sendo discutida nos círculos rabínicos. Recentemente, o nova-iorquino Yosef Kanefsky escreveu que:

Decidimos que homossexuais podem muito bem ser parte da condição humana. De acordo, decidimos que homossexuais não deveriam mais ter de pagar o preço psicológico e emocional, e até físico, para nosso conforto teológico

Greenberg dá sua opinião:

As pessoas estão começando a entender que não há apenas um único tipo de sexualidade. No passado, um dos maiores sábios judaicos de sua geração, Moshe Feinstein, descreveu a homossexualidade como uma rebelião contra Deus e como uma doença, mas agora isso é percebido como uma diferença normal. Há pessoas de esquerda, eu sou de direita. Você tem olhos marrons, os meus são azuis. Somos apenas diferentes

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