Orientalíssimo

por Diogo Bercito

 -

Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

A sombra que paira sobre o Líbano

Por Diogo Bercito

[youtube BmLGkyjjsMY nolink]

O líder do Hizbullah, Hasan Nasrallah, em discurso por criação de Estado islâmico (data provável, 1988)

Não será exagero supor que a Primavera Árabe, ou o que restou dela, entrou recentemente em um novo período. Com a decisão do Hizbullah de enviar centenas de militantes para a vizinha Síria, onde insurgentes batalham contra o ditador Bashar al-Assad, o Líbano pode estar sendo tragado para outro período sombrio de sua história.

O ponto de inflexão foram os guerreiros libaneses que participaram, na semana passada, do assalto a Qusayr, no lado sírio da fronteira. Ali, o Exército do regime trava violento conflito com rebeldes pelo controle de uma cidade estratégica para as rotas de suprimentos. Membros do Hizbullah morreram às dezenas, e foram enterrados como mártires.

Os guerreiros do Hizbullah são muçulmanos xiitas, assim como a minoria alauita que domina há décadas a política na Síria. Assim como o regime do Irã, também, que arma ambos os grupos.

É aí que se esconde o insidioso fantasma da violência sectária. O Líbano, como a Síria, tem grande população sunita –e a cidade de Trípoli já está vendo conflitos entre as duas seitas, com mortos e feridos a cada dia.

Robert Fisk resume o problema em artigo (clique aqui) no “The Independent”.

Simplesmente, esse é em potencial o maior perigo ao povo libanês –sem mencionar a soberania de seu Estado sectário– desde a guerra civil de 1975-1990.

Ainda é cedo para avaliarmos o resultado dessa crise. A história se escreve depois de acontecer. Mas os fatos são alarmantes. Ontem, foguetes foram disparados contra um centro de comando do Hizbullah, no Líbano. Horas depois, foguetes foram disparados a Israel, provavelmente partindo da cidade libanesa de Marjayoun.

Estão todos atentos. Há meses visitei a fronteira entre Israel e Líbano, em Rosh Hanikra, e vi os exercícios militares em andamento. Conversei com soldados, visitei as cercas dentro de um blindado.

Hoje, Israel realiza em todo o país duas simulações de ataques. Às 12h30 e às 19h05 sirenes vão ser disparadas, e os moradores terão de correr para abrigos. A simulação inclui armas químicas –como aquelas que o Ocidente teme poderem ser usadas pelo regime de Bashar al-Assad.

Encontrei hoje, no site da Al Arabiya, este vídeo que publiquei acima do texto. É um discurso de 1988 do líder do Hizbullah, Hasan Nasrallah. O líder prega a criação de um Estado islâmico do qual o Líbano será apenas uma parte. É a evidência, ainda que datada, da agenda desse grupo extremista. Como escreve Fisk, o Hizbullah se diz um movimento de resistência –mas por que está resistindo além de suas fronteiras?

Se, como Nasrallah insiste, o Hizbullah é realmente um movimento de ‘resistência’, como pode não ter apoiado a resistência contra Assad? Além disso, se o Hizbullah é uma criatura puramente libanesa — e de novo, isso é em que Nasrallah insiste — que direito tem de enviar centenas, mesmo milhares, de seus homens para lutar as batalhas de Assad?

Blogs da Folha

Publicidade
Publicidade
Publicidade