Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Conversas no escuro

Por Diogo Bercito
Figura de soldado no topo das colinas de Golã. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Um pouco depois das oito da noite, subo as escadas até o quinto andar de um prédio no centro de Majdal Shams –vilarejo druso ao norte de Israel, na fronteira com a Síria. Fui convidado para um encontro de membros de uma associação árabe pró-democracia. Estou curioso para saber do que se trata.

Abro a porta e me deparo com um grupo de 15 moradores locais reunidos em torno de um bule de café e uma garrafa de Schweppes. “Tafadal, fut”, me dizem –por favor, entre. Me junto ao grupo. Então, quando a reunião começa, me dou conta do óbvio:  todos eles vão falar em árabe coloquial. Eu ainda estou me adaptando às grandes diferenças regionais da língua. Não vou entender toda a conversa.

Depois de dois minutos de pânico, me apoio no encosto da cadeira de plástico e relaxo. Aceito a experiência como uma aula de árabe coloquial –e, por que não, como um desafio jornalístico.

Os drusos se revezam em discursos acalorados e, em geral, polidos. Ninguém se interrompe. Um pergunta ao outro sua opinião. “Bas sa’alt lak iza…”, diz um deles –“porém, perguntei-lhe se…”. Pesco algumas informações. 15 mil dólares para Quneitra, do outro lado da fronteira. Deve ser ajuda humanitária. Fawze, meu contato, esteve recentemente em Amã, na Jordânia, para arrecadar fundos para refugiados sírios. Então alguém menciona um “mustashfa”, um “hospital”, e começo a entender o vocabulário em torno do campo semântico. “Marid” (doente), por exemplo. “Amaliat” (cirurgia), também.

Escrevo em meu caderninho as palavras que entendo, na esperança de conseguir entender o contexto. “Todos os países árabes”… “Dinheiro”… “Basicamente”… “Ocupação”… “Relação”… Então uma das minhas expressões favoritas em árabe –“bi al-aks”, “pelo contrário”.

Todos eles vestem pólos. O homem ao meu lado tem rasgos na roupa. À minha frente, um senhor não tem metade do braço direito (ele me oferece café, e faz alguém segurar o bule). Dois deles usam óculos. “É obrigatório que”… “Também”… “Governo”… “Eles podem”… “Quer dizer”… Então mais algumas frases completas, e estou de volta à conversa –estão falando sobre a situação dos refugiados na Jordânia.

Não parecem especialmente preocupados, porque pensam que são os sírios em melhor condição, agora. “Eles de fato tem trabalho, hoje”, diz alguém.

O clima da conversa muda a todo o tempo. Às vezes riem. Um homem na minha frente parece chorar, em um momento. Meia hora se passa, e desisto. Tenho outro compromisso. Me levanto, agradeço. Trocamos desejos de boa sorte, e parto.

A região do Golã me faz pensar na Síria e em como me parece ser consenso que a população por lá é das mais hospitaleiras da região. Quando estive em Damasco, em 2010, fiquei emocionado com a recepção. Em Palmyra, no deserto, almocei com beduínos em uma tenda.

Tomei chá com desconhecidos e, quando não entendia o valor da comida, entregava minha carteira para o garçom contar o dinheiro –em confiança plena.

Mas o mundo mudou, desde então. Enquanto comia cerejas no jardim de um entrevistado, olhava as montanhas a poucas centenas de metros de mim e pensava nisso –o mundo mudou. O que existe, hoje, do outro lado? Como vai ficar, quando o conflito se resolver, e quando?

Se eu perguntar a um árabe, por aqui, provavelmente vou escutar –الله اعلم. “Só Allah sabe.”

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