Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Brancos, porém islâmicos

Por Diogo Bercito
Dzhokhar Tsarnaev, um dos irmãos suspeitos pelo atentado de Boston

Eu já tinha uma ideia de relato para hoje. Mas este texto do “Daily Beast” me fez mudar de ideia. Assim, adio meu comentário sobre o Mickey Mouse islamita do Hamas para escrever, com mais urgência, sobre como o islamismo é tratado como raça, nos EUA.

Quem acompanhou a cobertura da imprensa a respeito do atentado a bomba em Boston deve ter se deparado com os comentários daqueles que torciam para que os terroristas não fossem muçulmanos –evitando, assim, uma nova onda de preconceito religioso.

Os argumentos nesse sentido podem ser condensados na frase de David Sirota para o “Salon”: “Vamos torcer para que o autor da bomba da maratona de Boston seja um americano branco”.

A mídia conservadora, chocada, aparentemente comemorou quando foi divulgada a identidade dos dois suspeitos, os irmãos Tsarnaev –de origem tchetchena, uma região separatista da Rússia. O “Newsbusters”, que analisa o conteúdo liberal na imprensa, regozijou e registrou “Desculpe, David Sirota, mas parece que os suspeitos não são americanos brancos”.

O curioso, nota o “Daily Beast”, é que eles são americanos (Dzhokhar é cidadão; Tamerlan era um residente permanente, em busca de cidadania). Mas, mais grave: ambos são brancos. Para ser mais exato, eles são o mais caucasiano possível –vieram da região do Cáucaso.

“Nos EUA, hoje, ‘islã’ é um termo racial. Ser muçulmano não significa apenas não ser cristão ou judeu. Significa não ser branco”, escreve Peter Beinart, em seu texto do “Daily Beast”.

Beinart elenca uma série de casos de jurisprudência em que esse preconceito foi não apenas presente, mas institucionalizado. Por exemplo, em 1915, Dow v. EUA –um sírio cristão argumentou ser branco porque “Jesus, o cristão médio-oriental original, também era”. Em 1942, no caso In re Ahmed Hassan, a Corte de Michigan decidiu que um iemenita não era branco porque “é bem sabido que [iemenitas] são uma parte do mundo maometano e que um largo golfo separa a cultura deles daquela dos povos europeus predominantemente cristãos”.

“A razão pela qual é tão difícil para as pessoas aceitarem que os irmãos Tsarnaev são brancos é porque, desde a fundação dos EUA, ser branco significou, tanto cultural quanto legalmente, ser ‘um de nós'”, escreve o autor do texto do “Daily Beast”. “Desde o 11 de Setembro, ser muçulmanos significou o oposto.”

Eu recomendo a leitura do texto original, mais do que meu resumo. Mas faço um parêntese pessoal, no meio do caminho, conforme me recordo agora da razão pela qual me lembro claramente de como se diz “terrorismo” em árabe, “irhaab”.

Há uma cena indelével na minha memória: minha colega turca Alif, com quem estudei no Marrocos, diante da lousa com uma canetinha na mão. Ela está fazendo uma apresentação em árabe sobre as agruras de ser uma muçulmana na Alemanha.

Alif não se lembra de uma palavra. “É aquilo que pensam quando veem a gente”, explica à professora. Ambas usam o hijab, o véu islâmico.

Ah. Irhaab.

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