Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Via pública

Por Diogo Bercito
Rua próxima a Sheikh Jarra, em Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Eu havia escrito, aqui, um curto relato sobre os feriados judaicos em Jerusalém. Mas os comentários de leitores, levantando outros temas relevantes para a discussão, me inspiram em retomar este texto e acrescentar algumas informações.

Ontem, fui à minha aula de dialeto palestino (revezo os estudos árabes com os de hebraico, em busca de poder transitar melhor entre as duas populações do país). Em dias normais, o caminho me toma 15 minutos, com o serviço de tram. Mas o trajeto, dessa vez, durou quase uma hora.

É que eu havia me esquecido de que se comemorava ontem, em Jerusalém, o segundo feriado da semana do Pessach, a Páscoa judaica –o que significa que, por um dia, a cidade esteve parada e calada. Uma tempestade de areia, a pior nos últimos quatro anos, contribuiu para o clima deixando a atmosfera poeirenta e opaca.

Nos feriados, assim como nos dias de “shabat”, a cidade muda de tom. As lojas se fecham, as ruas se esvaziam, e mesmo quem não observa as tradições judaicas é obrigado a se conformar às regras.

Foi o que me fez caminhar, ontem, por bairros pelos quais em geral não passo. Saí de Nachlaot e fui a Sheikh Jarra a pé. No trajeto, passei por bairros haredim, o que em geral se traduz como “ultra-ortodoxos” com certo desvio de sentido. Daí a fotografia que está ali em cima, no começo do relato –caçambas de lixo e barricadas policiais garantem que ninguém vá passar de carro.

Assim como lençóis esticados nas prateleiras dos supermercados impedem a venda de produtos considerados inadequados para o consumo durante o Pessach, como pães. Isso quando as lojas estão abertas.

É uma situação desconfortável para quem não observa os rituais do judaísmo. Sem transporte público, fica difícil transitar pela cidade, ainda mais embaixo do calor. É preciso recorrer a taxistas palestinos. Os carros, por sua vez, não podem passar por todas as ruas, devido aos bloqueios.

Essa é uma questão importante para a construção do Estado, e opõe em algumas esferas a população secular e a religiosa –que discutem que papel vão ter as tradições religiosas na vida pública do país.

A questão me lembra o recente fechamento do Restobar, em Jerusalém. Era um restaurante icônico, em Rehavia, famoso por abrir durante o “shabat” –e por ser um ponto de encontro da população secular, que se encontrava ali nas sextas-feiras à noite. Por coincidência, estive ali poucos dias antes de o estabelecimento anunciar que fecharia as portas.

A mídia israelense relata que uma das razões para o fechamento era a imposição dos proprietários do imóvel para que o restaurante não abrisse durante o “shabat”.

Aner Shalev, em um artigo no jornal israelense “Haaretz”, comenta o fim do Restobar.

Sem aviso, você se sente sem lar. Você sente falta dos anos em Tel Aviv. Você sente falta dos anos no exterior. Você pensa sobre os amigos que se mudaram para Tel Aviv ou para o exterior. Você pode sentir que Jerusalém está escorrendo por seus dedos –se é que você já a teve.

Com completa falta de lógica, você se sente culpado. Por que não visitou o restaurante nas últimas semanas de vida dele? Por que não perguntou como ele estava? Por que não conversou mais com [os donos]? Talvez eles teriam te contado sobre as ameaças à existência do Restobar. Talvez estas palavras pudessem ter sido escritas antes da morte, e não depois.

Nós não devemos aceitar o fechamento do Restobar. Devemos salvá-lo e a tudo o que ele representa –porque a próxima perda pode não ser a de um café, mas a da maior cidade de Israel.

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