Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Preconceito

Por Diogo Bercito
Colono israelense (à frente) e manifestantes palestinos durante confronto em Hebron, na Cisjordânia. Crédito Mussa Qawasma/Reuters

– ‘Inta muslim?

Me pergunta o palestino que acabei de conhecer na lotação rumo a Nablus, na Cisjordânia. Estou encarando todas essas viagens aos territórios palestinos como aulas imersivas de árabe dialetal. Então respondo, animado.

– La’. Masihi.

Não sou muçulmano. Sou cristão. Ele sorri.

– Masihi wa muslim…

Cristão e muçulmano… E esfrega um indicador no outro, como quem diz “são irmãos”. Ele continua:

– Bés, yehudi…

Mas judeu… Ele morde o indicador e faz cara de quem comeu e não gostou.

Desde que cheguei a Israel, há menos de um mês, tenho visto em todos os dias a cara horrorosa do preconceito. Seja ele de base histórica, seja por razão econômica, seja fruto da ocupação militar, seja devido a um receio existencial –tanto faz.

E comecei este relato descrevendo a visão de um palestino só porque é o fato mais recente, e não porque seja um fenômeno de via única. O preconceito, aqui, tem mão dupla.

Ainda não publiquei a história que tenho investigado nessa região da Cisjordânia, então não vou entrar nos detalhes. Mas no domingo ouvi um jovem que me disse que odeia árabes “porque eles sempre estão bêbados”.

Em um assentamento israelense em Jerusalém Oriental, um colono me diz que não faz compras no mercadinho árabe a cem metros de sua casa porque é hostilizado. Pega o carro e dirige por mais de um quilômetro todos os dias.

Já o dono do açougue na esquina, um palestino criado nos EUA, fica surpreso que eu lhe pergunte se os colonos compram carne na loja dele. “Não. Nunca.”

Não que qualquer desses relatos seja novo a vocês. Essas histórias estão nos jornais em todos os dias. Mas posso garantir que ver tudo isso acontecendo, e nas situações mais corriqueiras, como uma viagem de ônibus, dá um desamparo diante das dificuldades históricas que a região enfrenta há décadas.

O ônibus rumo a Nablus passa por uma área em que vivem colonos israelenses. Eles guardam suas posições, bem armados, vigiando quem passa pela rua. Meu colega de ônibus, que se chama Hamza e já passou dos 30, me cutuca e aponta para os judeus –com o dedão e o indicador levantados, imitando um revólver.

Eu me pergunto quanto tempo ainda falta para eu poder descer.

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