Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Muralha feminina

Por Diogo Bercito
Membro do Mulheres do Muro diante de trecho do Muro das Lamentações, dia 12 de março. Crédito Baz Ratner/Reuters

Desci ontem, conforme surgia a manhã, as ruas de pedra escorregadia da cidade antiga de Jerusalém, rumo ao Muro das Lamentações. Passada a rotina de segurança, com detectores de metal, cheguei ao local sagrado do judaísmo –o trecho restante do templo erguido ali há mais de 2.000 anos.

As imediações do muro estavam apinhadas de policiais e de jornalistas empoleirados em cadeirinhas de plástico, procurando o melhor ângulo. Os rumores de que haveria um embate ali tinham tirado os repórteres mais cedo da cama.

Os jornais israelenses noticiavam no dia anterior que, em bairros ultra-ortodoxos, grupos conservadores haviam espalhado cartazes (“pashkevilim”) pedindo que houvesse manifestações contra o movimento das Mulheres do Muro –que organizava uma reza coletiva marcando o início de um novo mês no calendário judaico.

Eis que, para alguns grupos, a participação das mulheres nesse tipo de ritual é controversa. Elas obrigatoriamente oram em outro lado do muro, separadas dos homens por uma grade. Há uma série de outras proibições, como ler a Torá (a Bíblia judaica) em voz alta e usar “tefilin” (caixinhas de couro com cordões contendo um pergaminho, amarradas para proteção).

Pois bem. Esse grupo de mulheres organiza orações de início de mês há 25 anos. Ultimamente, tem enfrentado grave oposição, com prisão de participantes e atenção pública.

“Nós somos um grupo grande de mulheres. Cada uma reza de um jeito diferente, e algumas dessas maneiras não são reconhecidas pelos grupos ultra-ortodoxos”, me explica Shira Pruce, porta-voz do movimento. “Estamos buscando a liberdade legal para rezar.”

Conservadores, tanto homens quanto mulheres, gritavam contra a oração feminina –um rito musical, com danças circulares. Mas, do lado de fora, pude ouvir também debates interessantes. Judeus de diferentes grupos conversavam com ortodoxos para entender, afinal, qual é a razão do impedimento. “Elas estão fazendo isso para provocar”, dizia um garoto ortodoxo de chapéu preto. “Por que eu deveria me importar?”, perguntava outro, com seus dois “tefilin” amarrados.

A lei de regulação dos locais sagrados dos judeus, de 1981, estipula que não é permitida a prática de cerimônias “não de acordo aos costumes locais” e que possam “ferir os sentimentos dos fiéis” no local, informa um texto do “Jerusalem Post”.

Em 2003, a Suprema Corte reconheceu os direitos das mulheres de realizar ali suas cerimônias, mas alertou que essa não é uma permissão ilimitada, e que é necessário impedir a violência.

Ontem, a expectativa era que a situação fugisse do controle. Mas não. A manhã terminou com o grupo de mulheres –cercadas, sim, por policiais atentos– deixando o lugar, em uma lenta caminhada envolta em cantoria. Foi a primeira vez em cinco meses que não houve prisões de participantes, nota o jornal “Haaretz”. Talvez porque três parlamentares participavam do protesto, atraindo mais atenção pública.

Fechei meu bloquinho de anotações, pus a caneta no bolso e fui tomar café da manhã. Pão morno, hummus (pasta de grão de bico) e suco de romã.

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