Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Etimologia em conflito

Por Diogo Bercito
Criança durante confronto com forças de segurança, em Nablus, na sexta-feira; crédito Jaafar Ashtiyeh/AFP

Confesso que estou por fora dos últimos estudos sérios de línguas semíticas. Mas me lembro de, em alguma leitura passada, ter topado com o que parece ser a alguns autores uma etimologia da boa-vontade: dizer que Yerushalaim, nome hebraico de Jerusalém, significa “cidade da paz”. “Ir” significa “cidade”, “shalom” significa “paz”.

OK. Mas, ao que tudo indica, não é o caso. Na verdade, se bem me recordo da leitura do clássico “Semitic Languages — Outline of a Comparative Grammar” (E. Lipinski), a Bíblia da gramática semítica, os nomes de lugares nessa região são em geral herança de povos anteriores –portanto, difícil ter certeza do que significam.

Digo etimologia da boa-vontade porque parece ser um projeto de pensamento positivo, o tal “wishful thinking”. Afinal, Israel é uma terra de conflitos. Que não se engane quem pensa que o controle desta faixa estreita de terra é uma questão contemporânea, recente. Israel, Palestina –qualquer nome que se dê a esse espaço– é o local histórico de uma série de confrontos.

Assírios, babilônios, persas, gregos, romanos, bizantinos, para citar alguns dos povos que, antecedendo os otomanos, estiveram aqui antes de o Estado de Israel ser estabelecido no século 20.

Na semana passada, enquanto procurava histórias para contar na Cisjordânia, eu me vi no meio do conflito em si. Na entrada de Nablus, jovens empilhavam pneumáticos, punham fogo e se agachavam para pegar pedras nas mãos. As forças de segurança de Israel, em barricada, atiravam projéteis de gás lacrimogêneo.

Mais adiante, ainda na Cisjordânia, o motorista da lotação freou bruscamente –e o veículo parou entre um colono, à minha esquerda, apontando um revólver para uma criança palestina, à minha direita. Meus olhos se irritaram com o gás de lágrimas e, tossindo, agradeci ao motorista por sair dali imediatamente.

Procurei, depois, a notícia nas mídias local e internacional. Li relatos de conflitos no “Jerusalem Post” –mas como saber exatamente qual texto se referia ao confronto que eu tinha visto? Em que cantinho das estatísticas eu estava?

E como se importar, a essa altura, com a legitimidade de se “Yerushalaim” vem de “Ir Shalom” ou não –se já está claro que a paz, negociada há décadas com intermediação internacional, ainda não existe?

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