Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Shalom, salaam, oi

Por Diogo Bercito

“Shalom”, em hebraico. “Salaam”, em árabe.

Em português, duas letrinhas apenas: “oi!”

Assumi o posto de correspondente da Folha aqui em Jerusalém. Meu colega Marcelo Ninio, que até então assinava suas reportagens desta cidade, começou seu próprio desafio um pouco mais ao leste, na China.

Antes de relatar o agitado noticiário do Oriente Médio, queria me apresentar. Ou, melhor, apresentar a proposta deste diário.

Para isso, vamos tomar um pequeno desvio que passa pela linguística. Prometo que vai ser rápido. É só voltarmos um pouco para a primeira linha deste post, onde escrevi em hebraico e, depois, em árabe: Shalom, salaam.

Espero que tenham percebido que, trocando “sh” por “s” e “o” por “a”, escrevi a mesma palavra duas vezes.

Como repórter interessado no Oriente Médio e como aluno de literatura especializado em língua árabe, há um tempo tenho involuntariamente surpreendido as pessoas ao dizer o que, para mim, deveria ser do senso comum: árabe e hebraico são línguas irmãs.

Mas trocar “sh” por “s” e “o” por “a” é bastante coisa, alguém por aí pode dizer.

Está bem. Então perguntem a um bom linguista e, em dois minutos, ele explicará por que, por exemplo, as línguas do ramo cananeu (como o hebraico) trocaram “aa” por “o”.

(Se estiverem com preguiça, o verbete wikipediesco está aqui).

Não que este diário vá falar sobre linguística. No entanto, vou escrever aqui sobre as coisas que estão relacionadas ao “shalom” e ao “salaam” –que, já ia me esquecendo, significam “paz”, mas em sua raiz estão ligadas também a uma noção de “coisa completa”.

Mas as línguas vão, sim, me ajudar. Elas fazem parte do problema. Até mesmo a ideia de etnia “semita”, em voga por aqui, deve alguma coisa aos linguistas –o termo “semítico” era usado, no século 18, apenas para se referir às línguas aparentadas com o hebraico, antes de ser sequestrado por outras ciências humanas.

É difícil prever o que vai acontecer nesta região orientalíssima, então não posso prometer muito para este blog. Garanto, porém, que vou fazer como os linguistas, e vou procurar contar as minhas histórias pela diferença (“sh” não é igual a “s”) mas, também, entender a semelhança (no final, as duas palavras significam a mesma coisa).

O que quer dizer, é claro, que vocês vão me ver andando pelos assentamentos israelenses e também pelos vilarejos árabes, à procura do que houver de igual e de diferente para narrar.

A meta de um repórter é contar a história completa, como está na ideia pacífica de “shalom” e “salaam”. É a proposta deste diário.

Vocês vão me dizendo, pelos comentários, se estou cumprindo meu dever.

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